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A maldição da reforma

Sábado, Dezembro 1, 2018 - 09:50
Publicação
Diário de Notícias

A nossa sociedade criou vários conceitos e modelos sociais originais. Um dos mais nocivos é a noção de reformado. Todos estamos tão familiarizados com a ideia que nos parece normal e recomendável, sem questionarmos o vício que encerra.

Em primeiro lugar ser reformado é uma forma de discriminação, pois lida, não com estados, mas condições. Não se trata de um regime para pessoas que não podem trabalhar, mas para aquelas que atingem certa idade, independentemente da sua situação física e psicológica. Assim, constitui uma forma de «racismo etário»: quem ultrapasse certa longevidade é obrigado a passar à situação de reformado. A razão porque toleramos tal modelo é por parecer uma discriminação positiva: o reformado é alegadamente beneficiado pela pensão (aliás tem mesmo oficialmente o nome de «beneficiário»). Esta é a ilusão que distorce a lógica. Os idosos são tratados como obsoletos e ociosos, mas isso é suposto ser vantagem.

Em discussões superficiais, a coisa chega a ser vista como um direito: a pessoa descontou durante anos e agora compete-lhe receber. Aqui surge a incongruência, pois a até a afirmação é evidentemente falsa, como manifesta a famigerada crise da Segurança Social: se as pessoas tivessem descontado o suficiente, o sistema não teria dificuldades financeiras. Mas reduzir a questão a contabilidade e pagamentos é passar ao lado do verdadeiro problema que é, não económico, mas humano.

É bom afirmar à partida, para evitar juízos precipitados, que quem não têm condições físicas ou psicológicas para trabalhar deveria ser beneficiado pela sociedade com uma pensão. Mas isso é verdade em todas as idades. Por outro lado, quem pode trabalhar, em qualquer idade, deveria ser-lhe permitido continuar a contribuir para a sociedade. Ou seja, o sistema seria justo e razoável se dependesse do estado concreto da pessoa, sem um juízo cego e automático baseado na idade do sujeito.

Por outro lado, como inúmeros pensionistas descobrem, o ócio oferecido pela reforma é uma maldição, muito mais que um beneficio. À primeira vista a reforma parece férias pagas eternas; mas férias só existem como paragem reparadora numa vida produtiva. Quando a única coisa que se avista no horizonte são paragens, inactividade, vácuo, o gozo esfuma-se em breve. De repente, torna-se claro que toda a canseira, esforços e preocupações do emprego vinham ligados à dignidade, sentido e significado de uma actividade, que desaparecem na apatia. Este é o drama do reformado: deixa de haver motivo para se levantar de manhã, suportar incómodos, realizar algo. O prazer e liberdade do descanso transformam-se no aborrecimento esmagador da indolência, que a sociedade lhe ofereceu como excelente presente, e que tantas vezes o próprio aceitou gostosamente, sem compreender a armadilha em que caía.

Juntando insulto ao agravo, a sociedade, com a hipocrisia habitual, apregoa a necessidade de «envelhecimento activo», depois de ter feito tudo para impedi-lo. É claro que todos vemos as nossas faculdades decair com a idade; mais uma vez, isso é verdade em todas as idades. Nas empresas, os jovens de 20 anos não têm funções semelhantes aos colegas de 40 anos. Isso é evidente e natural. Aberrante é determinar uma idade na qual a actividade tem obrigatoriamente de cessar. Precisamente porque as pessoas beneficiam de envelhecimento activo, a reforma constitui um atentado contra a saúde dos idosos. Seria exploração forçar pessoas a tarefas pesadas e exigentes que não têm condições para desempenhar; mas também é nocivo obrigar pessoas a deixar de trabalhar quando estão capazes, só por atingirem certa idade.

A coisa fica infame, ao notar que, à medida que a Medicina estende as vidas activas, a reforma recua cada vez mais. Hoje é comum ver septuagenários, octogenários e até nonagenários perfeitamente lúcidos, frescos e dinâmicos, mas proibidos de trabalhar desde os 65, os 60 e até às vezes 55 anos. É, sem dúvida, o maior desperdício e prejuízo da sociedade, muito pior que desemprego, esbanjamento orçamental ou crises económicas.

Este erro monstruoso permanece há tanto tempo, por vir ligado a um aspecto da ideologia dominante: hoje todos sabemos que «os jovens são o futuro»; numa sociedade assim, é fácil considerar os velhos «fora de prazo». Em todas as outras culturas, os anciãos são os dirigentes, porque sábios e experientes. Vivemos no primeiro tempo que despreza uma pessoa e a arreda de cargos de responsabilidade só por ser velha.

Acresce o facto de, representando fatia crescente do eleitorado, os idosos terem enorme influência política, determinando a agenda governamental. Por isso as pensões são tão elevadas, arruinando o país. O que significa que é por vontade dos próprios idosos que se condenam à triste condição de reformado. Deste modo a reforma prejudica duplamente o país: não só desqualifica pessoas válidas, desprezando o seu saber e condenando-as a uma vida apática, mas impõe aos trabalhadores o fardo de os sustentar. É, sem dúvida, a maior tolice da actualidade.

 

João César das Neves, Professor Catedrático da CATÓLICA-LISBON

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