Generaliza-se um sentimento de desprezo pela democracia e sobem as forças radicais. Mudar o que está é fácil; difícil é melhorá-lo. Aderindo ao extremismo e desmantelando o regime atual, arriscamo-nos, como aconteceu há cem anos, a agravar todos os problemas e, no meio dos escombros do extremismo, ter muitas saudades daquilo que hoje abominamos.

As pessoas estão crescentemente descontentes com o regime. As eleições não propõem nada de novo e mantém-se no poder os representantes da elite habitual. Assim, uma grande percentagem abstém-se ou vota em branco, enquanto uma minoria prefere revoltar-se, votando nulo ou em partido radicais.

Este quadro é evidente em Portugal, mas não só. Um pouco por todo o Ocidente se sente o mesmo desgosto e, em certos casos, o processo de rejeição já se consumou. Nos EUA, Hungria, Itália os radicais estão no poder, na França pouco falta, enquanto Portugal, Espanha, Grã-Bretanha, Alemanha se aproximam. O lema é “temos de mudar, e isto só vai lá ao pontapé”.

Nestas circunstâncias é bom não esquecer dois princípios essenciais. Primeiro, mudar é fácil; difícil é melhorar. Segundo, as coisas raramente melhoram a pontapé; os problemas só se resolvem com trabalho lento, persistente e cuidadoso. Os irresponsáveis que protestam, acusam e ofendem são bons a destruir, mas raramente têm a competência e a paciência para compreender a situação, quanto mais governá-la.

A História ensina-nos que um clima de surda revolta não é, em geral, prenúncio de desenvolvimento, mas limiar de catástrofe. Os Bourbon e os Romanov eram péssimos, mas as revoluções francesa e russa conseguiram agravar muito mais a vida do povo. Era impossível ser pior que Mobutu, Saddam ou Gaddafi; derrotados e substituídos, descobrimos que, afinal, era possível ser pior que eles. Os casos raros em que a sublevação melhora as coisas, como a Revolução Gloriosa de 1688, a Revolução Americana de 1776 e a Revolução do 25 de abril de 1974, são precisamente aqueles em que os radicais enraivecidos foram afastados e substituídos por trabalho lento, persistente e cuidadoso.

Acima de tudo, porém, aquilo mais choca nos Ocidentais que hoje se lamentam e rejeitam a democracia, é que as suas vidas, mesmo dos pobres, são espantosamente melhores que as dos franceses de setecentos, dos russos de novecentos, ou dos súbditos de Mobutu, Saddam ou Gaddafi. As velhas revoltas eram de pessoas que não tinham nada a perder. Hoje, as queixas acontecem quando se goza de uma vida a que, durante milénios, ninguém podia sequer aspirar.

Aqueles que sentem nojo da atual classe política portuguesa, espanhola, britânica ou francesa esquecem que tudo o que têm e são o devem ao sistema que tanto desprezam. Os que berram contra a corrupção do regime, contra os “taxistas” que nos governam e contra a democracia podre que temos, põe em risco níveis de vida que muitos sonhariam ter. Queixas dessas seriam compreensíveis em Teerão, Caracas ou Cartum; em Odivelas, Beja e Gondomar são meras lamentações ociosas.

Portugal tem, sem dúvida, grandes problemas e existem graves defeitos na nossa vida pública. Mas para os resolver não são precisos mais protestos, queixas, revoltas; disso já temos muito, e só pioram o que está. Também não fazem falta promessas, benesses e ilusões. O que precisamos é o tal trabalho lento, persistente e cuidadoso, algo que nenhum dos radicais alguma vez poderia fazer.

É verdade que esse trabalho hoje mal se vê. Mas como é ele possível quando, assim que a ministra se senta no cargo, já toda a gente a condena por aquilo que está mal há décadas? Como vamos melhorar se, logo que um governo apresenta ideias novas, antes mesmo de se saber o que são, ou tentar negociar, já todos dizemos que é para rejeitar? Queremos novidades, mas recusamos inovações. Detestamos quem governava, mas dizemos que os que os substituem ainda são inferiores. Sabemos que isto há décadas anda de mal a pior, sem notar que a única coisa comum a esse longo período de alegada decadência somos nós que, sucessivamente, escolhemos livremente quem nos foi dirigindo.

Nós, os eleitores que elegemos os governos que tanto desprezamos, estamos agora prontinhos para apoiar os vendedores de soluções mágicas, que dizem mudar tudo num instante, sem nunca explicar para quê. Os americanos, húngaros e italianos já sabem o que isso é, e descobriram que as tais soluções mágicas não existem; as propostas radicais só agravam os males anteriores e trazem novos males que ninguém previa. Os raros casos em que corre bem são aqueles em que, uma vez no poder, os radicais abandonaram o radicalismo e se dedicaram ao trabalho lento, persistente e cuidadoso, como os seus antecessores moderados.

A Europa no princípio do século XXI, como no princípio do século XX, mostra grande descontentamento com a democracia e concede crescente apoio a forças extremistas de Esquerda e Direita. Isto apesar de o nível de vida ser hoje um múltiplo do que era há cem anos e todos, até os pobres, beneficiarem de condições que ninguém teve na história da humanidade. A geração dos nossos bisavós, desprezando o regime, chorou lágrimas de sangue com saudades do que tanto tinha odiado. Veremos se os eleitores e os radicais de hoje aprenderam algo desse desastre.

João César das Neves, Professor na CATÓLICA-LISBON