Portugal foi considerado no final de 2025 pela revista The Economist como a Economia do Ano. Este reconhecimento invulgar resultou de um crescimento estimado do PIB de 2% que é acima da média da UE, do aumento consistente do emprego, da estabilidade de preços e da valorização expressiva do mercado acionista. Estes bons resultados não aparecem isolados, antes vêm na sequência de excelentes resultados económicos desde 2023, com um crescimento real acumulado nos três anos de 7.5%, aumento de emprego e produtividade, desemprego em mínimo histórico nos 5.8%, aumento da poupança das famílias, super-ávites no orçamento de estado, balança corrente excedentária, e convergência real de 79% para cerca de 83% da média de rendimentos da UE. Será Portugal capaz de consolidar este sólido desempenho em 2026 e continuar a convergir para a média Europeia?
Há vários fatores de risco para a economia portuguesa em 2026. Por um lado, a fraqueza de alguns dos maiores parceiros comerciais de Portugal, como a Alemanha e a França, poderá reduzir as exportações. Por outro lado, o PRR terá a aceleração final no primeiro semestre para depois terminar abruptamente a 30 de Junho, o que poderá levar a uma contração de investimento e emprego público no 2º semestre. Além disso, o maior controlo da imigração em Portugal pode levar a uma redução do crescimento do emprego, a qual tem sido o motor da economia. Por fim, a incerteza gerada pela administração Trump e o aumento de tarifas poderá levar a um menor crescimento da economia global com impactos também em Portugal. Há também o risco de um crash nos mercados financeiros americanos que apresentam indicadores de nível especulativo em algumas classes de ativos, nomeadamente as tecnológicas, as cripto e os mercados privados de crédito e capital. Globalmente, um panorama pouco animador.
Embora estes riscos sejam reais, mesmo que se concretizem, o seu impacto na economia portuguesa deverá ser limitado pois existem vários fatores a puxar pela nossa economia.
Desde logo é de salientar o aumento de investimento. A fraqueza da economia portuguesa nos últimos anos tem sido o baixo nível de investimento e nota-se um acelerar do investimento público em 2025, o qual deverá continuar em 2026 mesmo sem fundos PRR a partir de julho, devidos aos excedentes das contas públicas. Além disso, os investimentos de grande dimensão já anunciados demoram tempo a licenciar e a arrancar. 2026 deverá ser um ano forte em execução de investimentos privados e públicos.
Do lado da imigração, apesar de poder haver alguma redução na oferta de força de trabalho por via das maiores restrições à imigração, é provável que a imigração continue forte dada a atratividade de Portugal para talento de todo o mundo (incluindo oriundos de países da UE para o quais há plena mobilidade de pessoas e que representam já 25% da imigração) pelo que é provável que em 2026 continue a aumentar o emprego e este tenha maior qualificação média. É que a economia portuguesa continuará a beneficiar do enorme investimento em qualificações dos últimos 20 anos, sendo que a população que sai do mercado de trabalho por reforma é menos qualificada do que a população jovem e imigrante que entra no mercado de trabalho, o que melhora a qualificação média e deverá puxar pela produtividade.
Do lado do consumo, a redução de impostos sobre o rendimento, o aumento significativo do salário mínimo e a crescente fixação em Portugal de pessoas afluentes de todo o mundo, devem continuar puxar pelo rendimento real das famílias e levar ao aumento do consumo privado, em particular nos serviços, os quais têm maior valor acrescentado para Portugal.
O favorável mix energético de Portugal com elevada produção de energia por via hidroelétrica, eólica e solar, fazem que Portugal produza quase toda a sua eletricidade de fontes renováveis e dependa cada vez menos de combustíveis fósseis, até pela crescente eletrificação da frota automóvel, em que carros eléctricos e híbridos plug-in representam mais de 50% dos novos registos. A consequente redução da importação de petróleo é mais um ganho para a economia. Ao mesmo tempo, os mais baixos custos energéticos da Península Ibérica face aos restantes países Europeus poderão atrair novos investimentos industriais e digitais para Portugal.
Finalmente, quanto maior for a incerteza geo-política mundial, maior será a vantagem de Portugal. A sua localização na região mais segura da Europa e a sua atratividade como local para criar empresas e para viver, não só atraem pessoas mas atraem também atividade económica, em particular de multinacionais europeias que procurem crescer ou reconfigurar as suas cadeias de valor. Aliás, o crescimento dos centros de desenvolvimento e competências das empresas mulitnacionais em Portugal tem sido um dos motores do crescimento da economia.
Por fim o risco de uma crise financeira mundial provocada por uma eventual queda nos mercados americanos e eventual redução de liquidez teria à partida pouco impacto em Portugal. O sistema bancário português está muito sólido e pouco dependente dos mercados globais. O crédito mal-parado de famílias e empresas está num mínimo histórico. O Estado, devido aos excedentes das contas públicas, não tem elevadas necessidades de financiamento. E as áreas de maior especulação – ativos ligadas à IA e cripto-ativos, têm ainda pouca expressão em Portugal. A bolsa portuguesa, apesar da subida de mais de 30% num ano, apresenta ainda valorizações prudentes face à expetativas de lucros futuros.
Estou convicto que as áreas de força e oportunidade da economia portuguesa superam os riscos e fraquezas. Portugal deverá assim continuar a apresentar um sólido crescimento em 2026. Estou também convicto que os números finais da economia para 2025 vão surpreender pela positiva, nomeadamente em termos de crescimento do PIB e excedente das contas públicas. Portugal terá uma oportunidade única nos próximos anos de dar um salto de investimento e produtividade que a torne uma economia mais próspera, convergindo para a média Europeia.
Um Feliz Ano Novo para todos!
Filipe Santos, Dean da CATÓLICA-LISBON