O mundo está perigoso, violento, ameaçador. Tarifas e mísseis, robots e algoritmos, notícias e podcasts despertam-nos do belo sonho da harmonia global. Regressam em força aqueles horrores antigos que, tão ingenuamente, achávamos eliminados pela civilização; regressam com muito mais força, dado o potencial devastador que hoje possuímos. Estamos a olhar para o abismo aberto; o abismo das guerras, revoltas, terrorismos, falências, carestias, caos.
Tentam convencer-nos que das portas abertas do Inferno saem inúmeros monstros. Monstros russos e ucranianos, israelitas e palestinianos, americanos e chineses, fascistas e Antifa, liberais e esquerdistas, bots e influencers. Dizem-nos que, neste mundo novo já não valem os valores antigos. É preciso ser realista e adaptar-se ao mundo como ele está. Enquanto cristãos, como reagimos? Os convertidos, ressuscitados e salvos, como enfrentam as portas abertas do Inferno?
A primeira resposta é rezar, entregar ao Senhor da História aquilo que realmente nos transcende. São acontecimentos que ultrapassam largamente, até os que se acham donos do mundo e julgam controlá-los, quanto mais a nós, simples cidadãos. Foi a soberba diabólica que criou os males; mas também existe uma soberba subtil na nossa arrogância de os querer compreender ou influenciar. Entreguemo-los ao Único que realmente os abrange.
Em segundo lugar, é preciso afirmar a certeza: apenas a nossa Fé tem a resposta que o mundo precisa. Isso é verdade em todos os tempos, mas especialmente evidente diante dessas portas abertas. Porque a causa dos horrores é, claramente, a falta de amor ao próximo. A era da informação está cheia de queixas, indignações, denúncias, condenações; a cura é diálogo, compreensão, empatia, misericórdia.
Temos muita razão nas acusações que fazemos, mas somos incapazes de ver a razão daqueles que nos acusam. Pior, considerando-nos justiceiros em perseguição de terríveis malfeitores, acabamos a fazer-lhes precisamente as coisas que lhes censuramos, assim justificando as acusações que eles nos fazem. O meritório combate contra as injustiças racistas e capitalistas levou à cultura do cancelamento e à autocensura. O compreensível repúdio pela inquisição woke e a ditadura do politicamente correto conduziu ao militarismo do ICE e à ameaça de matar uma civilização numa noite. O mundo a todos os níveis, da conversa de café e rede social aos confrontos militares, deixou-se enredar na espiral da agressão, onde cada golpe se acha perfeitamente justificado e justifica o golpe seguinte e maior.
Raramente foi tão evidente e tão urgente a suprema sabedoria: «Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. (…) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.» (Mt 5, 39-41, 44).
O terceiro aspeto é o anúncio da verdade, o pregão da Ressurreição. Diante das portas do Inferno é indispensável o grito da paz. Amar os inimigos não significa ficar passivamente a assistir às suas agressões. Dar a outra face não é fraqueza, mas força. É preciso avaliar o mundo, mas com honestidade e detalhe; denunciar, mas com respeito; acusar, mas com misericórdia. É preciso proteger os frágeis sem agredir os fortes; apoiar os pobres convertendo os ricos; promover a eficiência sem ignorar a equidade. É preciso lutar pela vida por amor dos que lutam contra ela.
Temos de defender a humanidade, toda a humanidade; não apenas a do útero e do leito de morte, mas também a que está na miséria, na droga química ou sexual, na discriminação. É preciso promover o progresso, mas o progresso da pessoa toda e de todas as pessoas. Há que construir a democracia, mas uma em que os eleitores dos partidos radicais não tenham motivos para votar neles.
Dizem-nos que as portas do inferno estão abertas. Nós respondemos que estamos com Pedro, sobre quem o Senhor edificou a Sua Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela (cf Mt 16, 18). É assim há muitos séculos, há muitos mundos. E este nem sequer está a ser dos piores.
João César das Neves, Professor at CATÓLICA-ISBON