Há uns dias, conversei com uma jovem, a Marta, na casa dos 30 anos, que me confessou ter um sentimento de incapacidade por já ter trabalhado em três ou quatro contextos diferentes sem ter encontrado, em nenhum deles, aquilo que procura. E comparava-se com os pais, ambos com carreiras bem-sucedidas, contruídas em grandes empresas.

Quando questionei por que razão considerava que os pais tinham tido sucesso, respondeu-me que ambos, vindos da classe média, tinham conseguido crescer profissional e financeiramente, criar condições para proporcionar aos filhos uma educação em boas escolas e alcançar um certo “conforto” nas suas atuais condições de vida.

Falámos, então, sobre o contexto que tinha rodeado a vida profissional dos pais, que pertenciam a uma geração em que a qualificação não tinha ainda chegado a muitos. A percentagem de licenciados era reduzida e, exceto em alguns períodos de crise, as grandes empresas precisavam destes profissionais e ofereciam condições de entrada e progressão que lhes permitiam, efetivamente, ascender ao longo da vida. Foram também os anos em que se comprava uma casa acreditando que o esforço financeiro se iria diluindo ao longo do tempo…

Trouxemos, então, esta reflexão para os dias de hoje e algumas conclusões ficaram claras, como o facto de o contexto atual ser significativamente diferente. Além disso, o acesso à qualificação trouxe um número muito maior de talento para o mercado.

Este é também um talento mais diverso: alguns jovens têm uma formação superior mais convencional, enquanto outros tiveram a oportunidade de “ganhar mundo” e experimentar diferentes realidades antes dos 30 anos, o que os torna altamente preparados para o mercado de trabalho.

Portugal, porém, posicionou-se como um país de salários baixos, o que não é compatível com a qualidade dos jovens que formou. A maioria das empresas não conseguiu escalar, nem oferecer aos jovens experiências que lhes permitam sentir que estão em permanente desenvolvimento. E poucas empresas compreenderam verdadeiramente que os jovens procuram bons salários (e os baixos salários, ou a sua reduzida evolução, os vão afastando), mas não só.

Quando não existe algo mais, como um propósito, um ambiente saudável e flexível, oportunidades de crescimento e autonomia, a oportunidade de participar em projetos em vez de desempenhar funções muito espartilhadas, espaço para experimentar, inovar, contribuir e deixar uma marca pessoal, ou a possibilidade de trabalhar “com” em vez de trabalhar “para”, os jovens procuram alternativas. E porque têm qualificações que lhes permitem fazê-lo, saem. Saem da empresa, ou acabam por sair do país.

A Marta referia, sobretudo, que tinha encontrado nas empresas por onde passou modelos de liderança antiquados e formas de organização do trabalho que acentuavam os silos que naturalmente se formam dentro das organizações.

Dizia também não ter encontrado culturas que valorizassem o conhecimento e a experiência dos profissionais mais velhos, algo que os pais lhe descreviam como tendo sido muito relevante quando iniciaram os seus percursos profissionais.

Quando as empresas “descartam” as pessoas mais experientes demasiado cedo, dão um duplo tiro nos pés: perdem uma parte importante do conhecimento acumulado e enraizado na organização e deixam de poder transmitir esse legado aos mais jovens, alimentando e acelerando o seu desenvolvimento.

Em suma, a vida não está fácil para os jovens. E, enquanto as empresas não entenderem que o maior esforço não deve ser em tentar “adaptá-los” à realidade existente, como muitas vezes ouço, mas em trabalhar soluções que envolvam transformar essa realidade, continuaremos a ter o mesmo problema.

É necessário transformar as lideranças, encontrar novas formas de trabalhar e envolver todas as gerações para este desígnio.

Se, entre estas três frentes de ação, tivesse de escolher apenas uma, escolheria trabalhar as lideranças, porque são os líderes que modelam as empresas, as relações que se criam e que estabelecem as condições para o desenvolvimento das Pessoas.

Terminei há poucos dias de ler a biografia do Pedro Queiroz Pereira, que me inspirou sobretudo pelo seu estilo de liderança. Nas suas palavras:

“O investimento mais importante para mim é ter a capacidade de criar, ao longo da minha vida, as condições de motivação, realização profissional e financeira, para os quadros das empresas a que presido, de forma leal, verdadeira, duradoura, consistente. Não é um sonho impossível.”

Pedro Queiroz Pereira, in Revista Fortuna (1997), excerto referido em Adrenalina – Biografia de Pedro Queiroz Pereira (2026)

A “receita” é conhecida. Sabemos o que os jovens procuram e o que temos de fazer para crescermos juntos – empresas e pessoas. Assim tenhamos a força, a energia e a vontade necessárias para avançar com esta transformação.

Talvez, quando o fizermos, deixemos de ter jovens numa procura incessante por novos contextos e passemos a ter empresas capazes de lhes oferecer um ambiente onde queiram permanecer, crescer e contribuir de forma duradoura.

Isabel Viegas, Senior Advisor and Lecturer at Católica-Lisbon SBE