A melhor descrição do fenómeno Trump surgiu antes dele nascer. É raro uma obra-prima começar vida nova aos 80 anos, mas os clássicos não têm idade. Foi a 17 de agosto de 1945 que em Londres surgiu o genial Animal Farm, em português O Triunfo dos Porcos. O livro de George Orwell é assumidamente uma alegoria do estalinismo, como o será também o seu outro volume de referência Nineteen Eighty-Four (1949). Nesse sentido, o texto ficaria preso ao horror da primeira metade do século XX. Só que, ao contrário desta, a primeira fábula inclui uma flexibilidade que lhe permite a transposição para outras realidades; o ano 2025 encarregou-se de lhe incutir renovada atualidade.

Não restam dúvidas que a narração segue de perto o caso da União Soviética; mas o próprio autor sugere a aplicação a outras situações; afinal, o tirano chama-se Napoleão. Deste modo, a parábola lança luz em realidade bastantes variadas. Primeiro, o estalinismo ainda perdura, na Coreia de Kim Jong Un, na Cuba de Díaz-Canel, na Venezuela de Maduro e, depois da interrupção após a morte de Mao, na China de Xi Jinping. Mas a descrição pode aplicar-se ainda a regimes com inspirações muito diferentes, do Irão de Khamenei à Turquia de Erdoğan e, ironicamente, à Rússia de Putin. Muito mais inesperado e perturbador é encontrar hoje laivos da Animal Farm no país que mais se opôs à URSS e mais usou a fábula de Orwell como argumento.

Será a Administração Trump estalinista? Claro que não. Aliás, falta-lhe mesmo um elemento fundamental, a ideologia orientadora, como o marxismo soviético e a sua variante porcina, o animalismo. Trump não tem doutrina, tem caprichos. O atual Partido Republicano, das mais antigas e respeitáveis formações políticas da história, casa de Lincoln, T. Roosevelt e Eisenhower, está hoje reduzida a caixa de ressonância de extravagâncias doentias. Apesar disso, relendo o pequeno volume, é assustador encontrar os crescentes paralelos com o movimento MAGA.

A primeira semelhança, e a mais decisiva, é a supina arrogância de quem se considera detentor de certezas indiscutíveis, que mais ninguém possui. Assim se garante uma governação iluminada e infalível. Neste campo, se possível, a realidade é ainda mais extrema que a ficção. No livro é o fiel cavalo Boxer quem inventa o slogan “Napoleão tem sempre razão” (c. 5); na vida real o próprio Trump repete-o descarada e obsessivamente sobre si mesmo, desde muito antes de entrar na política. Nunca admite um erro, e altera qualquer evidência para a ajustar à sua visão. Por isso, tal como na fábula, rapidamente se cai num reino de fantasia onde os factos pouco contam. Negam-se realidades, violam-se regras, rasgam-se acordos, manipulam-se instituições, impõem-se tarifas arbitrárias e suicidas, faz-se a corrupção mais desabrida, tudo com o maior desplante e arrojo. Se alguém se atreve a reagir é, tal como no livro, declarado inimigo do povo e partidário do abominado Snowball, o Trotsky soviético, agora Joe Biden.

O segundo elemento, consequência do primeiro, é um igualmente supino desprezo pela vida e dignidade das pessoas; todas as pessoas, até os partidários, quando se atrevem a pensar. Corta-se a ajuda humanitária sem ligar às mortes nas zonas mais pobres; tropas invadem cidades americanas, desde que em estados adversários; ameaça-se o sistema de saúde sem alternativa credível, mesmo nos estados republicanos; consideram-se e tratam-se os imigrantes como “lixo” e bombardeiam-se navios desarmados, e até os náufragos, em nome da “guerra ao narcotráfico”. Ao mesmo tempo o presidente acha-se merecedor do Prémio Nobel da paz.

Se as semelhanças são terríveis, as diferenças mostram-se ainda mais desconcertantes. Na obra, grande parte do enredo descreve o longo processo para chegar do sétimo e último mandamento do animalismo, “Todos os animais são iguais” (c.2), à hipocrisia suprema da frase mais famosa do livro: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros” (c. 10). Este desenvolvimento não tem paralelo na situação americana, pois Trump nunca admitiu o princípio original. A sua atitude, que não se pode chamar doutrina por ausência de elaborações e justificações, é um sobranceiro elitismo discriminador.

Como é possível que milhões de cidadãos votassem neste regime e muitos ainda hoje o apoiem? Também aqui o livro de Orwell tem a chave do mistério: a mais velha tentação da humanidade, fazer de Deus. Estas situações partem sempre de grandes projetos, grandes ideias. O sonho da libertação e da “era de ouro” justifica todos os sacrifícios, de que o tirano se aproveita. Corruptio optimi est pessima. Este é o coração do processo: «[O burro] Benjamin (…) dizia que Deus lhe tinha dado um rabo para espantar as moscas, mas que preferia não ter nem rabo, nem moscas.» (c. 1). A personalidade particular do déspota dá apenas o colorido exterior ao processo: militarista em Hitler, frio e cruel em Estaline, devoto em Khamenei. No tempo e na terra de Hollywood e Wall Street tinha de ser um comediante milionário.

João César das Neves, Professor na CATÓLICA-LISBON