O sistema financeiro dos Estados Unidos da América representa atualmente uma enorme fonte de risco para a Economia mundial e para os investidores. Um risco com múltiplas origens, nomeadamente político, económico, de endividamento público e privado, de avaliações do mercado acionista, e do crescimento das critpomoedas. Todas estas fontes de risco criam fragilidades para o dólar e para o sistema financeiro americano. Neste contexto, a União Europeia deve garantir que estes riscos não se tornam sistémicos e os investidores europeus devem investir com muita cautela nos EUA. FOMO (Fear Of Missing Out) nunca foi e não é bom conselheiro de investimentos.

O risco americano tem várias origens, todas elas preocupantes. Um dos riscos é político, com a deriva populista e autoritária da administração americana, no contexto de uma sociedade em quebra de confiança e cada vez mais polarizada. Não só políticas erráticas e dogmáticas têm consequências negativas a prazo na Economia, como minam a base de valores no qual assenta a vida em sociedade. Adicionalmente, um cenário, outrora impensável, é o risco de desunião interna num país altamente polarizado, que pode acontecer através de fenómenos de paralização da sociedade e desobediência civil no caso de haver manipulação das eleições intercalares de novembro.

Uma segunda fonte de risco é económico. A aparente pujança da economia americana e o desfilar de anúncios de grandes investimentos em indústria pesada e em infraestrutura digital escondem uma economia a duas velocidades, que acumula déficits correntes crónicos. Por um lado, temos um setor digital e da defesa com um crescimento enorme dos lucros, avaliações e investimentos. Por outro lado, temos muitos setores e consumidores a sofrer com a incerteza nacional e global, criando a possibilidade de uma retração no consumo num contexto de aumento da inflação. Poderemos entrar assim num cenário perigoso de “stagflation”, caracterizado por retração económica com aumento de preços dos bens e serviços.

O terceiro risco é o elevado endividamento público do governo federal, o terceiro maior do mundo em percentagem do PIB e o maior do mundo em volume de dívida que já ascende a 39 milhões de milhões (39 triliões em lingua inglesa). A dívida total, que já ascende a 125% do PIB, fica mais difícil de gerir e re-financiar com um déficit anual que supera os 6% do PIB (e significa um déficit de 27% do orçamento federal de 7 milhões de milhões). Adicionalmente as despesas continuam a aumentar em particular na área militar (com pedidos de aumento de 50% para 2027) e na área social com o envelhecimento da população. Todos sabem que a trajetória da dívida e do déficit não é sustentável, mas ninguém está disponível para fazer qualquer sacrifício para repor a sustentabilidade. A taxa de juro exigida à dívida pública tem vindo a subir e está já entre 4% e 5% para as médias e longas maturidades. Haverá um dia em que os mercados irão acordar e exigir um prémio de risco mais realista para deter dívida americana. Esta situação põe em causa o estatuto do dólar como moeda dominante e ativo de refúgio.

O quarto risco é o nível elevado de valorizações do mercado acionista. A avaliação das ações em comparação com a média histórica dos lucros (CAPE) está em cerca de 40 para as ações americanas (S&P500) em comparação com 22 para as ações europeias (STOXX600). O referencial histórico ronda os 18 e no ano do crash das dotcom chegou perto dos 45, pelo que este indicador está a dar um sinal claro de exuberância dos mercados americanos. Estas elevadas avaliações estão particularmente concentradas nas empresas tecnológicas. Cerca de um terço do peso do S&P500 é constituido por sete empresas tecnológicas e o setor tecnológico como um todo vale já cerca de 50% deste principal índice. Estes valores só são justificados com uma expetativa de aumento dos lucros muito elevada nas empresas tecnológicas. Essa expetativa parece estar a ser cumprida nos resultados recentes anunciados pelas maiores empresas. No entanto, estamos numa fase do ciclo especulativo em que os resultados da empresas são excelentes mas de menor qualidade, pois há muitos ganhos extraordinários dificilmente repetíveis. Por exemplo, o anúncio recente de 81% de aumento de lucros da Alphabet, dona da Google, é lido de outra forma quando descobrimos que todo este aumento é resultado de ganhos contabilisticos de participações acionistas em empresas privadas, como a Space X e a Anthropic. Ou seja, o crescimento das receitas e lucros que sustenta enormes investimentos em IA e centros de dados são gerados pela própria especulação em torno da inteligência artificial. É um castelo de cartas que se está a construir em cima de uma inovação realmente tranformadora que é o IA. Se a IA vai gerar valor económico real traduzível em lucros para as empresas que estão a realizar estes investimentos massivos não é ainda claro, pelo que o castelo de cartas pode ruir.

Neste contexto, quem percebe de mercados diz que ainda há caminho para mais subidas pois a fase final dos ciclos especulativos acontece quando os insiders vendem as suas ações ao público em vagas de IPOs para realizar liquidez e reduzir o seu risco associado a avaliações em que já não acreditam. O muito recente e dececionante IPO do fundo privado de Bill Ackman e os preparativos para o IPO em 2026 da SpaceX, bem como de grandes nomes de empresas de AI, podem ser o sinal de que o mercado está a atingir o pico. A recente decisão da autoridade gestora do Nasdaq de aligeirar as regras de listagem, acelerar a integração destes novos títulos nos indíces (obrigando assim todos os fundos de gestão passiva a comprar mesmo com avaliações elevadas) e reduzir o período durante o qual os insiders não podem vender, são sinais muito perigosos de desgoverno dos mercados americanos, em que a obtenção de lucros rápidos suplanta regras básicas de proteção dos investidores que existem há décadas e que foram criadas para evitar abusos.

Em cima de todos estes riscos ainda temos o elevado endividamento nos mercados de crédito privado, que estão a dar sinais claros de stresse financeiro, bem como a especulação em torno dos criptoativos com empresas denominadas “bitcoin treasury companies”, como a MicroStrategy, a endividarem-se em milhares de milhões de dólares nos mercado, prometendo dividendos e juros chorudos, sendo que a única proposta de investimento que têm é a compra de bitcoin na expetativa de que estas se vão valorizando ao longo do tempo. O que a MicroStrategy está a fazer é uma versão critpo do mal-afamado Ponzi Scheme dos quais tivemos historicamente exemplos, como o Bernie Maddoff ou a portuguesa Dona Branca. Esses escondiam o que faziam pois era ilegal. Agora nem é preciso esconder pois parece ser uma estratégia de investimento aceite e até elogiada.

Os investidores cautelosos e pacientes como a Berkshire Hathway estão já a desinvestir das ações americanas e mantêm 400 mil milhões de liquidez a aguardar uma correção dos mercados. A minha preocupação é assegurar que os investidores europeus estão cientes dos riscos destes investimentos e que a zona euro tem mecanismos para proteger a Europa do risco sistémico que vem dos EUA. E para quando um produto de poupança Europeu verdadeiramente atrativo com benefícios fiscais que motive os Europeus a investir mais na Europa?

 

Filipe Santos, Dean da Católica Lisbon School of Business and Economics