Durante muito tempo, os desastres climáticos foram tratados como exceções. Hoje, é impossível fugir-lhes: assolam o país e as notícias, pondo em causa o normal funcionamento das nossas vidas. Incêndios, cheias e tempestades sucedem-se, e a mudança de estação deixou de ser apenas uma variação no calendário para passar a trazer incerteza sobre o que vem a seguir. As alterações climáticas — expressão que ainda gera desconforto — deixaram de ser um tema abstrato para se manifestarem de forma cada vez mais concreta.
Segundo as análises mais recentes da Agência Europeia do Ambiente, Portugal está consistentemente entre os países do sul da Europa mais vulneráveis aos impactos climáticos. Estimativas situam as perdas económicas acumuladas desde 1980 na ordem dos €12–15 mil milhões, com danos provocados por eventos extremos acima da média histórica da União Europeia, sobretudo associados a incêndios, secas e inundações. Trata-se de um impacto cumulativo que expõe setores como a agricultura, a água e as infraestruturas a custos reais e crescentes.
O “comboio de tempestades” no centro do país tornou essa vulnerabilidade particularmente visível. Estradas cortadas, infraestruturas danificadas e atividades suspensas deixaram claro que estes fenómenos já não podem ser tratados como excecionais. Para as empresas, o efeito é imediato: operações interrompidas, cadeias de abastecimento fragilizadas, prémios de seguro mais elevados e uma crescente dificuldade em planear com base em padrões históricos. O impacto humano é imediato; o impacto económico prolonga-se.
Caso haja dúvida, não, nem sempre foi assim: ao contrário do passado, quando grandes eventos extremos surgiam espaçados no tempo, hoje acumulam-se em ciclos cada vez mais curtos, pressionando infraestruturas e empresas. Em 2024, o IPMA contabilizava 17 eventos climatéricos extremos em Portugal nos últimos 20 anos — um número que, claramente, continua a crescer. 2025 foi classificado como o segundo ano mais quente desde que há registos, e ao mesmo tempo, o país registou níveis de precipitação que não se observavam há mais de uma década. Mais do que variabilidade banal, é notável uma intensificação mensurável. Neste contexto, a adaptação começa a deixar de ser opcional. Seguradoras ajustam prémios e restringem coberturas; cadeias de abastecimento são redesenhadas com mais redundância e menos eficiência; empresas de energia investem em redes mais resilientes para lidar com precipitação intensa e ondas de calor. A Iberdrola reforçou as suas redes elétricas para resistirem a fenómenos extremos, a Nestlé adaptou e relocalizou hubs logísticos vulneráveis a cheias, e a Sogrape ajustou práticas agrícolas e calendários face a secas e temperaturas mais elevadas.
Adaptar-se não elimina o risco climático, mas reduz a exposição. E, neste cenário, essa capacidade de adaptação começa a separar empresas preparadas daquelas que continuam a operar como se a estabilidade climática ainda fosse um dado adquirido.
Matilde Campos da Cruz, Research Fellow no Center for Responsible Business and Leadership da CATÓLICA-LISBON