Há em nós esta convicção de que o nosso tempo é o mais incerto de todos.
Talvez seja verdade que a velocidade da mudança nunca foi tão elevada. Ainda assim, a sensação de que o chão treme, de que o futuro é ilegível e de que as referências desaparecem antes de as conseguirmos segurar não é novidade. São elementos tão antigos quanto a condição humana.
No início do século XIX, um grupo de artesãos ingleses começou a destruir as máquinas têxteis que ameaçavam as suas condições de vida. Ficaram conhecidos como Ludditas, e durante dois séculos foram caricaturados como ignorantes que se opunham ao progresso. No entanto, a realidade da história reveste-se de maior complexidade. Os Ludditas não eram contra a tecnologia. Eram, sim, contra a perda de controlo sobre as suas próprias vidas. Destruíram máquinas porque era a única forma que encontraram de gritar que o progresso avançava sem os incluir, impondo-se sobre eles, à sua revelia. Não podemos dizer que se tratava de irracionalidade. O desespero impulsionava-os a agir.
Esse desespero era concreto e legítimo, mas a forma que tomou, com a rigidez, a procura de um inimigo claro, a necessidade de dividir o mundo em dois, representa uma resposta humana muito mais universal do que o caso particular sugere. E repete-se ao longo do tempo. Com a imprensa, que ameaçou a autoridade da Igreja sobre o conhecimento. Com a industrialização, que transformou artesãos em operários. Com a internet, que dissolveu fronteiras entre o público e o privado. E agora com a inteligência artificial, que nos leva a questionar não apenas o que fazemos, mas o que somos.
A investigação em psicologia social pode oferecer uma explicação para este padrão de procura de controlo através da segurança que a certeza nos traz. Arie Kruglanski identificou aquilo a que chamou de need for cognitive closure, que sublinha esta necessidade de respostas definitivas, de um mundo previsível. Em períodos de incerteza e ameaça, esta necessidade intensifica-se. O ser humano tende a adotar crenças mais rígidas, a procurar grupos com fronteiras claras, a simplificar o que é complexo para o tornar suportável, a dividir o mundo em categorias simples. Nós e eles. Certo e errado. Passado glorioso e futuro ameaçador.
Mais uma vez, não é a irracionalidade que entra de rompante, mas um mecanismo de proteção, antigo, eficaz em contextos de perigo imediato, e profundamente desadequado para a complexidade do mundo em que vivemos. Quando ativado coletivamente, este mecanismo alimenta extremismos, polarização e intolerância. Observamo-lo em ação, todos os dias, à nossa volta. Crescem movimentos que prometem ordem em troca de simplicidade. Ressurgem ideais que a história já testou, com resultados pouco auspiciosos. Partimo-nos entre bocados. Entre a pessoa e a máquina, entre o nacional e o estrangeiro, entre quem ficou e quem foi.
O problema que se vislumbra não passa tanto pela inteligência artificial, pela disrupção, nem pela incerteza em si. Perdemos o centro.
Há uma diferença entre um mundo que muda e um ser humano que não sabe quem é enquanto esse mundo se transforma. O primeiro é inevitável. O segundo é uma crise de identidade, individual e coletiva, que se manifesta precisamente neste tipo de fragmentação. Quando não temos uma relação suficientemente sólida connosco próprios, qualquer mudança exterior torna-se existencialmente ameaçadora. E respondemos como sempre respondemos à ameaça: procuramos controlo, construímos muros, escolhemos lados.
Há quem coloque todo o foco no exterior, seja na tecnologia, nas tendências, no que o mundo exige. E se perca no processo, tornando-se instrumento de forças que não escolheu. E há quem se feche de tal forma para dentro que deixe de viver em relação com o outro e com o que o rodeia. Nenhum dos extremos resolve o problema. O desafio é mais subtil e mais exigente: manter um centro suficientemente sólido para podermos estar no mundo sem que sejamos varridos por ele.
Isso não se faz com mais informação. Faz-se com autoconhecimento, com a capacidade de saber quem somos, o que valorizamos, de onde pensamos, antes de decidirmos como agimos. É o trabalho mais difícil e o menos celebrado. Não tem algoritmo, não tem aplicação, não tem versão acelerada.
E talvez seja exatamente por isso que é o mais necessário.
Vivemos num tempo em que somos requisitados constantemente enquanto objetos de forças maiores. A resposta mais radical é insistir em sermos sujeitos da nossa própria vida. Não sozinhos, porque as divisões e as exclusões não constroem, apenas desequilibram, mas juntos, com a consciência de que o que nos une é mais profundo do que qualquer disrupção que nos separe.
O mundo não vai parar. A questão principal é se conseguimos manter o centro enquanto ele não para.
Duarte Afonso Silva, Development Manager Executive Education na Católica Lisbon School of Business & Economics