Em épocas de transformação social surgem sempre dirigentes que quebram cânones, desafiam convenções, violam acordos e regras, levando a pensar num estilo de liderança sem fé nem lei. Usando o método de rufia do recreio, impõem a sua vontade sem escrúpulos ou contemplações. A sociedade da informação treinou-nos a pensar assim, popularizando a figura do supervilão; habituados a contemplar Lex Luthor, Voldemort, Thanos e tantos outros, não é difícil identificar análogos entre os reais.

Esta forma de pensar distorce gravemente a realidade. A razão de fundo da tese é interesseira, poupando a nossa consciência; se a maldade provém de uma espécie de gene, que define naturalmente o maléfico, então podemos descansar, pois não nos afeta. Mas o mal é menos um gene que um vírus; qualquer um pode apanhar. Somos todos feitos da mesma massa. Assim, os tais dirigentes nunca se consideram portentos de maldade. Fazem muito mal, mas, tal como nós, pretendem fazer o que lhes parece melhor perante terríveis ameaças.

Os maiores horrores da história ‒ da revolução francesa ao “grande salto em frente” chinês, dos nazis aos khmers vermelhos ‒ resultam, não de monstros acéfalos e amorais, mas de idealistas fervorosos apostados na sociedade perfeita. Nenhum deles se considerava sem limites, mas, constrangidos por obstáculos assustadores que enfrentavam, viam-se como vítimas inspiradas por exigentes códigos éticos. Era essa elevação moral que permitia justificar as piores atrocidades sem hesitações. Corruptio optimi pessima. [do latim “a corrupção dos melhores é a pior que existe”]

Para encontrar exemplos destes não é preciso consultar a história ou a literatura; basta abrir os jornais. Vivendo uma época de espantosas novidades e sabemos bem como os problemas que nos assolam são exigentes, difíceis, intratáveis. Isso, paradoxalmente, aumenta a credibilidade dos que apregoam soluções rápidas e drásticas. Pululam os visionários que dizem melhorar a nossa vida facilmente, embora, em geral, aumentem as dificuldades.

Só compreendemos estes fenómenos se omitirmos ilusões e partirmos da certeza que esses líderes, que parecem sem limites, são realmente muito parecidos connosco. Mais ainda, basta admitir os seus postulados distorcidos e passam a ser plausíveis os piores atos. Os casos são muitos e variados, conforme as circunstâncias e personalidades, mas existem sempre três pontos em comum.

O primeiro é precisamente um supervilão. O líder começa por identificar um inimigo terrível e implacável, que tem de ser destruído. A prioridade suprema é eliminar essa atroz ameaça ‒ sejam imigrantes ou xenófobos, capitalistas ou socialistas, judeus ou palestinianos, católicos ou muçulmanos, woke ou MAGA. Estamos numa guerra implacável, que exige as medidas mais extremas e justifica até atos desumanos. Apesar disso, não podemos dizer que eles agem sem limites, pois veem claramente os obstáculos e até têm medo.

O segundo elemento é a total desconfiança no sistema, nas instituições, nas leis. O chefe assegura que os tais adversários perverteram inelutavelmente a sociedade, e é preciso desmantelar o que existe para construir de novo. Assim não se podem invocar tradições, princípios, decência, pois tal seria fazer o jogo da ameaça; a compaixão ou até a simples justiça são consideradas cumplicidade com o mal absoluto, que só pode ser erradicado implacavelmente.

O terceiro aspeto é uma supina confiança e autoconfiança no líder, visto como genial, sublime, iluminado, dotado da bondade, da verdade, da eficácia, único capaz de nos salvar do hediondo perigo. Este movimentos baseiam-se sempre num forte culto de personalidade.

Os séculos estão coalhados de figuras destas, as quais criaram as piores catástrofes, sempre em nome de altos ideais; mas a verdade é que, apesar dessa evidência negativa, o modelo não perde atualidade e permanece tão popular na era da internet como era no tempo dos pregoeiros, dos panfletos impressos ou da rádio. O único ingrediente indispensável para que floresça é um medo plausível, que gere a raiva e a ânsia por um vingador.

Como acabam estes episódios? Que podemos esperar do surto de extremismo em que estamos envolvidos?

Invariavelmente, os líderes que pensam poder desprezar o sistema como obsoleto criam situações muito piores que a podridão que denunciam. A estratégia de rufia tem resultados a curto-prazo, mas sofre de graves problemas de sustentabilidade.

Quando finalmente é deposto o tirano e passado o vendaval, mais ou menos devastador conforme os casos, constatamos que os tais supervilões que o líder denunciava e tanto temíamos são, também eles, muito parecidos connosco. Têm temores e esperanças, sonhos e dores como nós e querem apenas viver a sua vida em paz. Somos todos feitos da mesma massa. Então reaprendemos a estar juntos uns com os outros, reconstruindo uma ordem imperfeita, que irá funcionar até à próxima catarse coletiva.

João César das Neves, Professor na CATÓLICA-LISBON