A SpaceX anunciou a sua IPO (oferta pública inicial de ações) que será a maior da história procurando levantar 75 mil milhões de dólares a uma avaliação que ronda os 1.8 milhões de milhões de dólares. Para termos noção do que estes valores significam, o dinheiro que Elon Musk procura levantar junto dos investidores é igual ao valor das 8 maiores empresas do PSI – EDP, JM, BCP, GALP, SONAE, NOS, Navigator e REN. Mas ao comprar estas empresas os investidores estariam a comprar 100 mil milhões de receita e 5 mil milhões de lucros anuais. Ao colocar esse mesmo valor na SpaceX estão a comprar 4% de uma empresa que gera menos de 20 mil milhões de receitas e tem 5 mil milhões de prejuízos! Usando outros referenciais, a avaliação proposta pela SpaceX é 5 vezes o valor do PIB português e igual ao valor das 5 maiores empresas europeias que geram no seu conjunto 60 mil milhões de lucros anuais. E isto, por uma empresa que não só tem prejuízos como está a consumir 9 mil milhões por trimestre e não prevê lucros nos próximos anos.
É natural que, na fase final dos ciclos especulativos com as emoções ao rubro e o FOMO (Fear Of Mising Out) a comandar decisões, olhemos para estes números absurdos e digamos – há uma narrativa que permite avaliar a SpaceX desta forma. E qual é essa a narrativa? Cidades em Marte com 1 milhão de pessoas, centros de dados no espaço para servir a economia de IA e uma estimativa de dimensão de mercado que é maior que a economia americana. E isto prometido por uma pessoa que, para além de já ser CEO de várias outras empresas, vai ser ao mesmo tempo Chairman, CEO e CTO da SpaceX e detém 10% de ações especiais que lhe dão 52.5% do direitos de voto para sempre. Ou seja, Elon Musk e os investidores privados e gestores a ele associados podem vender 90% das ações aos investidores por 1.5 triliões de dólares e Elon Musk continuará a controlar a empresa como se fosse sua propriedade privada.
É verdade que a SpaceX é uma empresa líder no setor espacial e tem a melhor tecnologia para colocação de cargas no espaço, dominando mais de 80% deste mercado. Isto permitiu-lhe criar uma rede de satélites global – Starlink – com a qual vende serviços de internet em todo o mundo. É daí que vem quase toda a sua receita e margem. Mas, esta empresa de sucesso foi recentemente estragada pelo negócios especulativos de Elon Musk. A SpaceX adquiriu por 250 mil milhões em ações a xAI, fundada pelo próprio Elon Musk, e que perde rios de dinheiro com o modelo de IA Grok. A xAI por sua vez já tinha comprado no ano anterior a X (ex Twitter) por 45 mil milhões, empresa essa que Elon Musk tinha comprado caro por 44 mil milhões (desta vez em dinheiro) e que destruiu com o despedimento de 80% dos empregados e políticas divisivas, mas que lhe deu o controlo de uma rede social. Ou seja, o padrão de Elon Musk é realizar aquisições em ações entre empresas deficitárias por si detidas, com base em valorizações no papel cada vez maiores, para garantir ganhos contabilísticos para si e para os seus investidores privados, os quais vão agora todos poder finalmente vender as ações aos investidores após a IPO, a uma avaliação estratosférica.
Mas podem dizer-me - só compra ações da SpaceX na IPO quem quiser. É o mercado a funcionar. Errado. O pior não é valorização absurda da SpaceX nem o facto de ser controlada por Musk com apenas 10% das ações. O pior é que o mercado de capitais dos EUA está a ser viciado para beneficiar Musk e desproteger os investidores. Porque, na mira de atrair as grandes IPOs que aí vêm (SpaceX, OpenAI e Anthropic), a bolsa NASDAQ, para garantir que ganhava estas operações, alterou em maio as suas regras de inclusão em índices. Essa alteração permite que empresas como a SpaceX integrem o NASDAQ100 em 12 dias em vez de esperar um ano. Outra alteração foi o desaparecimento do requisito de ter de disponibilizar pelo menos 10% das ações (free float) para poder integrar o índice. Isto ajuda a SpaceX que prevê vender apenas 4% das ações. Mas como, com estes 4%, o peso no índice seria muito baixo pois é calculado com base no valor das ações públicas, o Nasdaq também decidiu que os títulos com baixo free-float seriam ponderados ao triplo!
O jogo está tão viciado que o ganho nos dias iniciais é quase certo pela pressão compradora obrigatória dos fundos de gestão passiva que seguem os índices. Existem mais de 1.5 triliões de dólares de fundos passivos que seguem o NASDAQ100. Com base nas novas regras, esses fundos terão de comprar ações da SpaceX com base no seu peso no indíce que será acima de 0.6%. Isso implica uma procura imediata e obrigatória de mais de dez mil milhões de dólares em ações a qualquer preço, independente do valor da empresa ou da qualidade dos seus resultados. Isto fará o preço dar um salto no IPO, o que cria um efeito de bola de neve pois um preço mais alto aumenta o peso no índice, o que obriga os fundos a aumentarem as compras, o que volta a aumentar o preço. Nessa altura, e face à procura crescente, os funcionários e investidores da SpaceX colocarão no mercado as suas ações, em vez de terem que esperar os habituais 6 meses. Os investidores privados e gestores conseguirão assim vender as sua ações e ganhar montantes bilionários desligados do valor real da empresa. Com base nesta expetativa de ganhos fáceis, já se iniciaram movimentos especulativos de comprar blocos de ações pre-IPO acima do preço da IPO.
E isto acontece porque todos lucram no processo. Os executivos da empresa que recebem ações e as podem vender, os investidores privados que apostaram na SpaceX, os que concederam crédito à empresa a taxas elevadas, os bancos que promovem a operações de IPO, a qual é “liderada” pelos cinco principais bancos de investimento americanos, e as próprias bolsas como o NASDAQ que aumentam a sua dimensão e receitas ao atraírem IPOs trilionárias. É um jogo que todos lucram menos o investidor de retalho que é chamado (e agora obrigado por estas novas regras) a participar em IPOs com valorizações excessivas no pico da bolha.
Neste contexto, aplaudo a coragem do fundo de pensões dinamarquês AkademikerPension que, perante este cenário, afirmou que tinha colocado a SpaceX na sua lista de empresas excluídas por razões de valorização especulativa e governação catastrófica. Existe também um movimento de fundos de pensões americanos contra estas novas regras do NASDAQ, mas que estando sob jurisdição americana terão de replicar o índice e comprar ações.
E as autoridades europeias de regulação de mercados, como a ESMA, que vão fazer? Deixar este mercado viciado obrigar os fundos de gestão passiva com base na Europa a comprar ações da SpaceX? Quando se está perante o absurdo de serem mudadas as regras do jogo um mês antes de uma mega IPO para beneficiar essa operação, está claramente na altura de tomar uma posição corajosa de proteção dos investidores, função essencial da ESMA.
É que hoje a IPO da SpaceX é anunciada como a maior da história. Amanhã a história lembrará a IPO da SpaceX como o princípio do fim da bolha especulativa do mercado tecnológico americano.
E, numa nota mais otimista, à comunidade da Católica-Lisbon SBE deixo o meu triplo parabéns!
- Parabéns pelo extraordinária subida de 11 posições no ranking FT de Formação Executiva para 26ª melhor Escola Mundial em Formação Aberta!
- Parabéns pelo lançamento a 1 de Junho da nova imagem da Escola na continuação do seu percurso “Achieve Greatness”.
- Parabéns pelo alumnus Vítor Gaspar que recebe, na Católica-Lisbon SBE no dia 2 de junho às 18h, o Prémio Carreira por um percurso extraordinário de investigação, serviço público e liderança internacional.
Filipe Santos, Dean da Católica Lisbon School of Business and Economics