Vivemos numa época obcecada com a possibilidade.
Somos inundados, por todo o lado, com uma mensagem frequente: qualquer objetivo está ao alcance de qualquer pessoa. São milhares os caminhos disponíveis. Há role models que provam que é possível. Há frameworks, metodologias, suplementos para a produtividade, rotinas matinais de pessoas bem-sucedidas. E há palavras, como mindset, consistência e resiliência, que se vão repetindo até perderem o devido peso, como se bastasse pronunciá-las para que o caminho se abrisse.
É uma mensagem sedutora, e parcialmente verdadeira.
É verdade que há mais caminhos do que alguma vez houve. É verdade que trabalhar a criatividade, a autoconfiança e a capacidade de persistir faz diferença. Mas há algo que esta narrativa omite, quase sempre de forma conveniente: há objetivos para os quais não existe atalho. Há caminhos que são aquele caminho, sinuoso e exigente, e não há forma de chegar ao outro lado sem o atravessar.
O problema não é a ampla possibilidade. É ficarmos presos à ilusão de facilidade que a acompanha.
Quando imaginamos algo que queremos, como uma mudança de carreira, um projeto que sempre adiámos, uma versão diferente de nós próprios, acabamos por construir na nossa cabeça uma imagem simplificada de como lá chegar. Vemos o destino, mas não vemos a distância.
É como pensar num sítio para onde gostaríamos de viajar e só depois abrir o Google Maps. De repente, a distância é real. Os voos com escala, as horas de viagem, a logística que não tínhamos considerado. E muitas vezes, nesse momento, fechamos o mapa. Guardamos a ideia na gaveta. Dizemos que talvez um dia, quando for mais fácil, quando houver mais tempo, quando estivermos mais prontos.
Reconheço isto em mim. Houve alturas em que percebi que o caminho para algo que queria não tinha a forma que eu esperava. Que não havia alternativa mais suave, nem versão abreviada do processo. Que era preciso atravessar o deserto, e que o deserto era mesmo deserto. A frustração que senti não foi por falta de vontade. Foi o choque entre a imagem que tinha construído e a realidade que encontrei.
E esse choque paralisa. Não propriamente por preguiça, mas porque ninguém nos preparou para ele. A cultura da possibilidade mostra-nos os destinos, celebra as chegadas, e raramente fala com honestidade sobre o que é necessário para percorrer o caminho.
Não somos fracos por adiarmos. É uma resposta compreensível a uma expetativa que foi traída. Criámos uma imagem de facilidade, encontrámos uma realidade difícil, e recuámos para nos protegermos do desconforto.
Mas há algo que aprendi, e que continuo a aprender, sobre os objetivos que realmente importam: a dificuldade não desaparece por a ignorarmos. O deserto continua lá, independentemente de quantas vezes fechamos o mapa. E quanto mais adiamos, mais a distância parece crescer na nossa imaginação.
Que não nos perguntemos o quão difícil é o caminho, porque quase sempre o é. Perguntemo-nos antes se estamos dispostos a vê-lo, com verdade, sem a ilusão de facilidade, sem esperar pelo momento em que será mais simples, e ir na mesma.
Atravessar o deserto não é o obstáculo antes do caminho. É o caminho. E há tanto por descobrir na árida travessia.
Duarte Afonso Silva, Development Manager Executive Education na Católica Lisbon School of Business & Economics.