Muitos políticos e comentadores condenam a ideia de os EUA se apoderarem da Gronelândia por a ilha ser um território sob a soberania de um país amigo e de um aliado na Nato. A manobra americana estaria errada por questões legais, diplomáticas e morais.
Apesar de Trump e de alguns outros políticos americanos no passado mencionarem essa ideia, talvez a razão mais importante para a não apropriação da ilha pelos EUA tenha uma natureza mais pragmática: os Estados Unidos nunca chegaram a comprar ou invadir a Gronelândia porque nunca foi necessário! Sempre que os EUA precisaram de usar a ilha para a sua defesa, fizeram-no sem problemas ou dificuldades de maior. Foi assim na Segunda Guerra Mundial e foi assim durante a primeira Guerra Fria. Formalmente, desde 1951, os EUA e a Dinamarca têm um tratado que permite aos EUA fazerem basicamente tudo o que precisarem para a sua defesa nacional na Gronelândia.
Assim, ao longo dos anos, os EUA puderam dispor de acesso quase ilimitado ao território da ilha que usaram para construir e operar várias bases militares. No entanto, a partir de 1991, com o fim da Guerra Fria, a situação inverteu-se e ocorreu um desinvestimento substancial dos EUA, com o fecho de várias bases e instalações e a redução do contingente militar na única base restante, a base de Pituffik, dedicada à defesa aéreo-espacial. Os dados conhecidos apontam para uma guarnição atual de 150 militares. Por comparação, este número é inferior aos 180 militares que constituiriam a mais recente e reduzida força americana na base das Lajes.
Se, como se queixa Trump, não há defesa que chegue contra incursões e presenças marítimas intrusivas chinesas e russas, a culpa é de quem? O desinvestimento dos EUA ao longo dos anos foi um erro notório que piorou substancialmente a situação no Ártico quanto à segurança dos EUA e da própria Nato. Em contraste com as queixas de Trump, o erro agravou-se durante a sua primeira administração e continuou durante este primeiro ano do segundo mandato.
Como explicar a persistente não correção de um erro tão grave? Provavelmente por duas razões diferentes, talvez um pouco especulativas e a necessitar de evidência académica, mas que merecem atenção.
A primeira razão tem a ver com uma estratégia demagógica para obter apoio popular e ficar na história. Entre outras, as compras da Luisiana por Thomas Jefferson em 1803 e do Alasca por Andrew Johnson em 1867 são episódios marcantes da história dos EUA que Trump tenta copiar. Apesar do impulso primário que leva eleitores pelo mundo fora a gostarem de aumentos da dimensão do seu país, isso é um resquício de um mundo agrícola pré-revolução industrial em que mais área significava mais poder. O mundo hoje é diferente: a prosperidade, segurança e poder de um país dependem sobretudo da sua capacidade para gerar inovação e criar riqueza, o que países como Singapura atestam. Eventuais ganhos com acréscimos de áreas terrestres e marítimas são cada vez menos relevantes.
A segunda razão para a persistência do erro americano e de Trump, a confirmar-se, é mais grave. Admitir que o Ártico será cada vez mais navegado por russos, chineses e outros implica admitir que está a ocorrer um processo de aquecimento global. Trump e muitos republicanos têm-se recusado a admitir o aquecimento global e têm tentado liquidar as políticas de mitigação e adaptação para fazer face ao problema (algumas das quais, de facto, são bastante más). A reação de Trump e de outros acusando de vigarice quem demonstre a existência do aquecimento global pode ter impedido a adoção de uma política de defesa muito necessária, apesar de baseada em factos inoportunos. Para confundir e esconder um erro estratégico, Trump optou por apelar demagogicamente à ocupação da Gronelândia. Mas o erro na base do problema de segurança é grave e em breve isso será claro para os eleitores.
Miguel Gouveia, Professor na CATÓLICA-LISBON