As empresas portuguesas foram observadas ao longo dos últimos 4 anos, de forma sistemática, rigorosa e com profundidade. Num período marcado por crises sucessivas (pandemia, guerras, inflação, fragmentação geopolítica, incerteza e crescente pressão regulatória) seria expectável que a sustentabilidade tivesse sido empurrada para a periferia da estratégia corporativa. Há quem advogue que a “moda da Sustentabilidade” já passou. No entanto, os dados mostram outra realidade. A sustentabilidade entrou definitivamente no vocabulário estratégico das empresas e passou a fazer parte do debate sobre competitividade, risco e criação de valor. Isto é o que nos mostram os dados do Observatório dos ODS nas empresas portuguesas, cujos resultados serão apresentados no próximo mês de Março na CATÓLICA-LISBON.
Como mencionou recentemente John Elkington, professor britânico responsável pela terminologia do “tripple bottom line: people, planet and profit”: “Se recuarmos o suficiente e olharmos com distância, é provável que estejamos a assistir ao fim do início de um mercado de sustentabilidade como o conhecemos. A implicação é clara: em vez de a sustentabilidade continuar a ser um “nice to have”, acabará por ficar incorporada “em tudo ( o que as empresas fazem)””.
Outros dados revelam tambem esta tendência. A Accenture e o UN Global Compact publicaram um estudo em setembro de 2025 em se verifica que 97% dos CEOs inquiridos globalmente afirmam estar alinhados com as prioridades dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e 88% vêm um business case claro na sustentabilidade. Por seu lado, o estudo da Bain&Company: “The Visionary CEO’s Guide to Sustainability 2025” revela que 54% dos CEOs do mundo se referem, hoje em dia à sustentabilidade não como responsabilidade social, propósito ou comunicação pública, mas sim como forma de fazer negócio.
No entanto, os dados destes estudos também relevam que 92% dos líderes considera crítica a existência de governança global e união políticia para que a Agenda de Desenvolvimento Sustentável possa evoluir positivamente. Este dado vai, alías de encontro com a própria concretização do ODS 16 – Paz e instituições eficazes que, como vemos, está ameaçado pelo contexto internacional fragmentado e instável.
Deste modo, a realidade atual é dual. Por um lado, o setor privado já percebeu que a operação eficaz e bem-sucedida dos negócios exige que a sustentabilidade seja critério de decisão e parte da estratégia e operação corporativa. Na verdade, é a única forma de fazer negócio a médio e longo prazo. Por outro, algumas potências globais, outrora unidas em unanimidade em 2015 em volta de objetivos comuns como os ODS ou Acordo de Paris, parecem querer preferir o auto-centrismo e a destruição de valor global, apesar desta estratégia ser obviamente perdedora para todos os envolvidos no médio e longo prazo, como bem referiu Mark Carney (primeiro Ministro do Canadá) no seu discurso no Word Economic Forum, a semana passada. Talvez por esta razão os cidadãos confiem cada vez mais nas empresas e não nos governos para operar as mudanças que o mundo precisa, o que demonstra um fortíssimo enfraquecimento das democracias.
A questão que se coloca hoje não é: o que devemos fazer, mas como fazê-lo. Não é se a sustentabilidade é fundamental para a propseridade. Ela é a prosperidade.
Como construir, então, o futuro de governança global necessário, mantendo as empresas no centro da ação, enquanto os seus negócios prosperam? Se quem tem poder político são os estados, quem tem o poder económico são as empresas. Será este poder suficiente para operar as mudanças que o mundo precisa num ano em que quebramos mais uma barreira planetária e guerras, genocídios, e ameaças aos direitos humanos se propagam?
Para responder a estas questões e muitas outras igualmente pertinentes, o Center for Responsible Business and Leadership organiza em março de 2026 o evento: “Agenda 2030, Passado ou Futuro?”. Neste evento serão questionados, discutidos e debatidos estes temas, mas também lançados os dados do Observatório dos ODS nas empresas portuguesas, num esforço coletivo da Universidade Católica, com o setor privado e público português, de criar uma agenda de prosperidade comum que responda aos desafios atuais. Porque os resultados da observação são claros, e agora, exigem Ação.
Filipa Pires de Almeida, Executive Director of the Center for Responsible Business and Leadership at CATÓLICA-LISBON