Empregos e profissões mais em risco com a pandemia Covid-19

Terça, Julho 7, 2020 - 09:51

Este artigo faz parte da série Análises da Economia Portuguesa em tempos de Covid-19, iniciativa do PROSPER - Center of Economics for Prosperity, e representa algumas das conclusões do estudo Quem arcará com os custos da crise Covid-19: Análise de empregos em risco em Portugal. 


Autores: Joana Silva, Kamil Kouhen, Madalena Gaspar e Martim Leitão

Um terço dos trabalhadores em Portugal pode operar em teletrabalho, representando 44% da massa salarial em Portugal. Entre trabalhadores portugueses, 58% estão empregados em industrias consideradas essenciais e 30% estão empregados em industrias não-essenciais e não podem trabalhar a partir de casa, sinal de alta vulnerabilidade. Entre os trabalhadores sem possibilidade de teletrabalho, 54% trabalham em industrias essenciais e 46% trabalham e indústrias não-essenciais. Ainda, 23% de todos os trabalhadores exercem profissões que requerem forte interação social. Finalmente, cerca de 36% de todo o emprego no setor privado é substituível por máquinas ou autómatos. 

Figura 1: Empregos e massa salarial por tipo de emprego (%) 
Fonte: Cálculos dos autores usando a base de dados dos Quadros de Pessoal.

Para avaliar os trabalhos em risco, é importante determinar quantos empregos podem ser feitos em teletrabalho e quanto representam estes trabalhos em termos de massa salarial total. Usando informação proveniente de inquéritos à natureza de cada trabalho, diferentes ocupações foram classificadas como passiveis de teletrabalho ou não. O inquérito identifica características laborais que façam com que trabalhar a partir de casa seja difícil ou impossível, como por exemplo ocupações que exijam atividades fora de portas ou atividades que impliquem conduzir veículos. Nesta classificação, foi seguida de perto a análise de Dingel e Neiman’s (2020) para os Estados-Unidos da América. Converteu-se para a classificação CAE (4 dígitos) informação sobre as características de mais de 900 ocupações com base em dois inquéritos provenientes da O*NET. Usando os Quadros de Pessoal (2017) e esta classificação, foi avaliada a prevalência de trabalhos que podem ser feitos a partir de casa em Portugal. A análise revela que 33% de todos os trabalhos no setor privado em Portugal (excluindo trabalhadores independentes) pode ser feito a partir de casa, representando 44% da massa salarial total (Tabela 1). Trabalhadores em ocupações onde teletrabalho é uma possibilidade tipicamente auferem mais. Há diferenças substanciais entre as indústrias. A grande maioria dos trabalhos nos ramos da educação, consultoria, atividades tecnocientíficas, finanças e seguros, informação e comunicação podem ser executados a partir de casa. Por outro lado, são poucos os trabalhos facilmente executáveis a partir de casa nos seguintes ramos de atividade: restauração e hospitalidade, agricultura e manufaturação. Setores sensíveis contam com uma taxa de trabalhos não executáveis a partir de casa desproporcionalmente alta quando comparados com setores não sensíveis. 

Uma outra dimensão que deve ser tida em conta quando indagamos trabalhos em risco, é se requerem fortes interações sociais. A nossa classificação de trabalhos que requerem interações socias intensas é baseada na definição de Blinder (2009) posteriormente adaptada por Avdiu e Nayyar (2020) para medir os efeitos da crise da Covid-19 nos Estados Unidos da América. Existem quatro fatores basilares que determinam a intensidade requerida por interações sociais: (i) o trabalho envolve estabelecer e manter relações pessoais, (ii) requer assistir e tratar de outros, (iii) envolve atuar para ou diretamente com o público, ou (iv) consiste em vender ou influenciar outros e tipicamente requer interações pessoais extensas. Por outro lado, trabalhadores em áreas da informação e da tecnologia ou em carreiras científicas podem facilmente realizar os seus trabalhos a partir de casa e requerem um menor nível de interação social. Converteu-se para a classificação portuguesa CAE (4 dígitos) informação das características das mais de 900 ocupações com base em dois inquéritos O*NET. De seguida, foi empregue um inquérito internacional de ocupações O*NET referente à intensidade das interações pessoais em cada ocupação. Desta feita, com base nesta classificação e usando os Quadros de Pessoal, estimamos que 22% dos trabalhos não requerem qualquer tipo de interação pessoal. A vasta maioria de empregos nas áreas da saúde, serviço social, educação, e administração pública requerem interações pessoais intensas (i.e. acima da média do índice). Em contraste, são poucos os trabalhos nas áreas da mineração, manufaturação e construção que requerem interações sociais intensas. Trabalhos em setores considerados sensíveis são mais propensos a envolver interações pessoais. 

Trabalhos essenciais são definidos como sendo essenciais ao funcionamento da sociedade e da economia quando o governo decreta confinamentos. Na maior parte dos casos, os trabalhos considerados essenciais coincidem entre países e incluem, a título de exemplo, médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde que levem a cabo auxílio médico, bem como industriais que forneçam bens e serviços essenciais como água, comida, eletricidade e transporte. Dado que Portugal não emitiu orientações especificas, classificaram-se trabalhos essenciais em Portugal com base nas decisões de Itália e dos estados americanos de Oklahoma, Minnesota e Delaware. Estes últimos produziram listas dos setores essenciais, com códigos de industria extremamente detalhados (6-digit NAICS) (ver Garrote et al. 2020). Recorrendo à conversão entre códigos da NAICS e da CAE, tornou-se possível identificar que trabalhadores, nos Quadros de Pessoal 2017, trabalhavam em industrias essenciais e industrias não-essenciais. Os resultados apontam para que 42.3% dos trabalhadores portugueses estejam empregados em indústrias consideradas essenciais. Constata-se ainda que 30.34% dos trabalhadores portugueses estão empregados em industrias não essenciais e não podem trabalhar a partir de casa, o que indica um elevado nível de vulnerabilidade. Entre aqueles que não podem trabalhar desde casa, 54% trabalham em industrias essenciais e 45.8% trabalham em industrias não essenciais. 

Para alem das medidas de vulnerabilidade acima descritas, há ainda evidência de crescente utilização de inteligência artificial e robótica em setores como o retalho, com o intuito de limitar interações entre pessoas e assegurar aos clientes que os seus produtos não estiveram em contacto com o vírus. Diversos sistemas administrativos e de pagamento foram automatizados e a grande maioria das viagens de negócios foram substituídas por teleconferências. O enviesamento das mutações tecnológicas vai aumentar a produtividade, mas vai também moldar as desigualdades de forma permanente (Chua, Loayza, and Schmillen 2018). Promover qualidade educativa, investir em aprendizagem nas idades mais tenras, educação secundária e superior, estágios, são cruciais para desenvolver ferramentas que levem a salários mais elevado neste novo, inevitável contexto. Adicionalmente, atrair investimento estrangeiro e grandes firmas multinacionais é crítico. Com recurso a um índice de substituibilidade de cada ocupação na classificação ONET (5 dígitos) para robôs (como em Graetz and Michaels 2018) e convertendo e adaptando estas ocupações ao CAE português, atribuímos a cada CAE português (4 dígitos) um índice substituibilidade por robôs. Calculámos de seguida medidas de vulnerabilidade usando este índice. Estima-se então que 36% dos trabalhadores portugueses têm trabalhos automatizáveis, representando 34% da massa salarial total. Entre os trabalhadores que não podem trabalhar a partir de casa, 35% são substituíveis.

 


Este artigo faz parte da série Análises da Economia Portuguesa em tempos de COVID-19

A pandemia COVID-19 coloca enormes desafios à Economia Portuguesa e aos decisores económicos e políticos. A CATÓLICA-LISBON está a desenvolver, desde o início da pandemia, um conjunto de iniciativas que incluem sondagens, análises económicas, propostas de políticas e conferências digitais, as quais divulgamos nesta página. Esta iniciativas procuram gerar conhecimento, discutir experiências, apresentar análises de dados, e mostrar nova evidência relevante para as decisões económicas dos cidadãos, empresas e entidades públicas. A página tem a curadoria da Profª Joana Silva, Diretora do CATÓLICA-LISBON Center of Economics for Prosperity e conta com contributos dos economistas e investigadores da CATÓLICA-LISBON.

Procuramos assim contribuir para uma mais rápida recuperação da Economia Portuguesa e maior bem-estar de todos os cidadãos. We Stand UNITED!

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Se tiver alguma pergunta sobre o material apresentado ou quiser contribuir, por favor contacte a curadora Professora Joana Silva


 

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