A Europa enfrenta desafios existenciais e tem importantes opções a fazer. Que haja em 2026 líderes europeus com força e inteligência para navegar estes novos caminhos.

Na época Natalícia celebramos, em família e comunidade, o humilde nascimento há 2000 anos de uma criança que transformou o mundo com um mensagem de paz e amor. A troca de presentes é símbolo de carinho e cuidado com aqueles que nos são próximos, idealmente combinado com ações de caridade para apoiar quem mais precisa. Esse é o espírito do Natal – paz, caridade, humildade, gratidão.
 
Infelizmente, o ano de 2025 teve pouco de espírito natalício. Começou da pior maneira com a tomada de posse de um líder nos EUA narcisista e aproveitador, antítese da humildade e da caridade. Continuou mal, com o encerramento abrupto e ilegal da USAID, a maior agência humanitária do mundo. Seguiu-se o disparate das tarifas, o aprofundar de divisões internas, a guerra à ciência, a hostilização dos imigrantes, o crescer de tensões entre países, bem como a normalização de políticas nacionalistas, contrárias ao multilateralismo que norteou a década anterior.
 
O ano terminou pior, com uma corrida crescente ao armamento e uma forte especulação nos mercados financeiros americanos, no qual os ganhos de curto prazo, assentes em crédito, suplantam as preocupações com a sustentabilidade e criação de valor. Foi um ano chocante, em particular para os povos europeus e os defensores da democracia liberal, que viram ameaçados os seus valores e as regras de convivência mundial praticadas há décadas, as quais geraram uma sociedade próspera.
 
O ano de 2025 não foi uma anomalia, mas sim o iniciar de um novo ciclo geopolítico mundial ao qual a democracias liberais vão ter que se ajustar. Os ditadores e “homens fortes” de todo o mundo sorriem, pois este é um mundo que conhecem bem e no qual se sentem confortáveis. É o mundo regido pela lei do mais forte e todos os líderes mundiais procuram agora ser os mais fortes na sua região e no mundo, seja controlando diretamente a economia e os seus cidadãos, seja reforçando as suas forças militares e de segurança, seja cobiçando a riqueza alheia, num reavivar imperialista do conceito de espaço vital das nações.
 
Que haja em 2026 líderes europeus com força e inteligência para navegar estes novos caminhos
Curiosamente, as economias mundiais mostraram uma resiliência inesperada face a toda esta incerteza e mudança, com um crescimento económico global perto de 3%, valorização da generalidade dos ativos financeiros e uma apreciação enorme dos metais preciosos (ouro, prata e platina) como ativos de refúgio globais, em detrimento do dólar americano.
 
Assim, neste contexto, o ano 2026 não trará nada de novo, mas mais do mesmo. Mais incerteza, mais conflitos regionais e entre nações, mais políticas nacionalistas, mais corrida ao armamento, mais reforçar da auto-suficiência de cada nação, mais repudiar do multilateralismo.
 
Ao mesmo tempo, 2026 trará tudo de novo, com o necessário ajustamento da estratégia das nações que continuam a seguir o modelo de democracia liberal. A Europa, em particular, enfrenta desafios existenciais e tem importantes opções a fazer.
 
Seguem alguns princípios norteadores para a nova e necessária estratégia europeia:
 
A união faz a força: As democracias liberais terão que articular políticas, alinhar posições e negociar em conjunto, tanto nos temas conjunturais (resposta às tarifas ou outras políticas económicas interessseiras) como nos temas estruturais (autonomização estratégica em relação ao sistema de defesa norte-americano). Para conseguir avanços estratégicos poderá haver uma geometria variável de alianças e alinhamentos. A União Europeia será um ator chave neste processo, devendo aprofundar a sua aliança com países como o Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Japão e trazer para a sua esfera de influência outros países chave como o México, Brasil, África do Sul e Índia. Internamente, a União Europeia terá que avançar com os consensos possíveis também numa lógica de geometria variável, excluindo países que resistam. A contenção da Rússia imperialista será o seu objetivo estratégico principal e existencial.
 
Defesa inteligente dos valores: As democracias liberais devem continuar a defender os valores da ordem mundial anterior, não de forma dogmática e intransigente, mas de forma inteligente. As regras do Estado de Direito, a defesa dos direitos humanos, a transparência dos mercados, a gestão prudente dos riscos, o evitar de conflitos de interesse, a firmeza da regulação face a abusos pelas empresas, a promoção da sustentabilidade e equidade, e o combate à desinformação, são temas que devem continuar a orientar as políticas europeias. Mas as soluções e regulações não podem ser ingénuas e devem reconhecer que os principais países do mundo não as cumprem, nomeadamente os EUA e a China. Assim as regras não podem incidir apenas sobre as empresas europeias, mas devem ser adoptadas como regras universais e condições necessárias para acesso ao mercado europeu.
 
Gerir a "blocalização" financeira: já está a acontecer a fragmentação do sistema económico mundial, o que levará também inexoravelmente à fragmentação do sistema financeiro. O sistema financeiro americano está atualmente entregue aos interesses da classe política dominante e de uma reduzida élite empresarial e deixou de ser um mecanismo eficiente de afetação de recursos. O investimento dos excedentes financeiros europeus no mercado americano só irá reforçar o poderio dos EUA e poderá gerar uma crise na Europa quando a bolha especulativa no mercado americano rebentar. Como ponto de partida deve ser criado um forte incentivo fiscal à aplicação de poupanças de cidadãos europeus em ativos europeus, e equacionar a proibição do investimento em ativos especulativos, como sejam a maioria dos ativos digitais, os quais não geram qualquer rendimento. Deve além disso ser fortemente regulada a aquisição de empresas europeias por empresas de outros blocos, bem como protegidas empresas europeias em áreas estratégicas, sendo definidos critérios para essa análise e modelos para essas decisões.
 
Isto levará a medidas polémicas, mas necessárias para a Europa num contexto geopolítico que se alterou de forma estrutural. Que haja em 2026 líderes europeus com força e inteligência para navegar estes novos caminhos. E que os cidadãos europeus tenham a sabedoria para eleger e apoiar os líderes certos e perceber que o contexto atual pode exigir sacrifícios pessoais e coletivos para assegurar a sobrevivência da Europa e do nosso modelo económico e social.
 
E neste final de ano uma nota positiva para o feito da Universidade Católica Portuguesa ter sido considerada em 2025 a segunda universidade mais empreendedora do país, com base no número de negócios desenvolvidos pelos seus graduados. E a Católica é mesmo a universidade líder na proporção de graduados empreendedores. Líder é também a Católica Lisbon School of Business and Economics, que renovou a sua tripla acreditação em 2025, continuando no grupo das 1% melhores escolas do mundo e tem consolidado a sua posição nos rankings mundiais do Financial Times com os melhores mestrados e formação executiva. E aproveito para agradecer a parceria com a Rádio Renascença para o podcast Negócios com Impacto, em que todas as semanas destacamos empreendedores inspiradores da CATÓLICA-LISBON.
 
Um bom Ano de 2026 para todos.
 
Filipe Santos, Dean da CATÓLICA-LISBON