Nunca se falou tanto de longevidade como atualmente. Nunca se publicaram tantos estudos e data sobre o aumento da esperança média de vida e sobretudo que este aumento vem acompanhado de saúde e energia.
Segundo o INE, a esperança média de vida em Portugal situa-se nos 81,5 anos, sendo que para as mulheres está nos 85,4 anos, as mais altas taxas de sempre. Significa que quem chega aos 65 anos pode aspirar viver, em média, mais cerca de 20 anos.
E esta tendência de aumento consistente da esperança de vida, traz desafios importantes na saúde, habitação, mercado de trabalho e sustentabilidade demográfica.
Vejamos os paradoxos atuais relativamente ao mercado de trabalho.
Temos, por um lado, uma escassez de mão de obra (efeito da saída de Portugal de muitos jovens) e por outro um grupo significativo de profissionais com 50 ou mais anos, com qualificação, desempregados, sobretudo fruto de processos de reestruturação de alguns setores e com expectativas compreensíveis de voltar a trabalhar.
E, se pensarmos que estas pessoas saíram de setores que investiram muito na formação dos seus quadros nas últimas décadas, estamos perante um “contingente” muito qualificado. E a ser completamente desperdiçado.
A esta realidade somam-se 3 outros aspetos muito relevantes que vêm aumentar a complexidade do ambiente no mercado de trabalho:
· estamos a assistir, em muitas empresas, a profissionais que não querem deixar de trabalhar quando atingem a idade de reforma, pois sente-se capazes de continuar a contribuir;
· as empresas sem um modelo de captação e retenção do legacy destas pessoas, perdendo imenso do seu conhecimento quando saem;
· a introdução da IA nas empresas está a começar pelas tarefas, processos mais simples ou rotineiros, o que indicia que pode vir a substituir funções desempenhadas pelos mais jovens e só mais tarde pelos mais experientes. A ser assim, as empresas vão precisar destas pessoas mais seniores durante mais tempo.
Portanto, temos hoje uma situação no mercado de trabalho que não é interessante para ninguém:
· As empresas com dificuldade em atrair talento jovem, a não saber tirar partido e capitalizar o conhecimento e a experiência dos mais experientes e a perder muito do seu legacy
· Os profissionais mais experientes a verem-se afastados de um trabalho, com as repercussões negativas que daí advêm (perda de rendimentos na família, numa altura de vida ainda com muitos compromissos, problemas de auto-estima, de saúde, etc)
· O Estado que se vê privado das contribuições destes profissionais e que se vê afetado pelos custos diretos e indiretos deste grupo nos sistemas sociais em vigor no país (segurança social, saúde, etc).
Então, é tempo de agir. E de chamar as empresas e as instituições a trabalhar no encontro de soluções para os paradoxos que estamos a viver no mercado de trabalho. Fácil, não será. Mas ou caminhamos e evoluímos, ou ficamos para trás, deixando muitas pessoas para trás.
Qualquer solução que encontremos para estes desafios tem de passar por quebrar alguns estigmas, em particular o da idade.
Pessoas com mais de 50 anos são um ativo estratégico, assim as empresas valorizem o que podem aportar a uma organização:
* experiências que reduzem erros e aceleram decisões;
* níveis elevados de compromisso e lealdade para com as empresas;
* capacitados para fazer mentoring a jovens em início de carreira;
* uma rede de contatos construída ao longo dos anos;
* responsabilidade e menor necessidade de supervisão;
* assegurar a transferência de conhecimento, entre outras valiosas contribuições.
É preciso desmistificar também que estes profissionais são caros. Têm uma carreira que deve ser valorizada, sim. Mas muitos estão disponíveis para encontrar soluções de relação com as empresas de grande flexibilidade e moderação. Por projetos, por um tempo determinado, etc.
É tempo de agir. De experimentar aproximar profissionais com mais de 50 anos para as nossas empresas e avaliar o seu valor.
E não se trata de uma ação de responsabilidade social. Trata-se de trazer para o negócio quem pode aportar valor. Muito valor.
Isabel Viegas, Professora na CATÓLICA-LISBON