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O fiel discípulo

Sábado, Dezembro 8, 2018 - 16:27
Publicação
Diário de Notícias

Imaginemos que António Costa se preocupava realmente com os verdadeiros problemas do país. A sua governação seria muito diferente do que é. Nesse caso ele teria de considerar as grandes questões nacionais, e essas andam muito arredadas da sua retórica.

A atenção estaria centrada no crescimento da economia. Se a dinâmica da nossa produção fosse intensa, todas as outras questões estariam resolvidas: os rendimentos das famílias aumentariam naturalmente, haveria recursos para atender aos sectores sociais e questões demográficas, e até o Orçamento seria excedentário e a dívida cairia, mesmo alargando as despesas. Não há dúvida de que a grande dificuldade da nossa vida pública é a falta de crescimento.

À primeira vista esta análise parece espúria, pois a plataforma de António Costa centra-se precisamente no orgulho pela aceleração da economia. Mas tudo se baseia num truque, comparando a dinâmica pífia destes anos com a recessão anterior, em relação à qual qualquer coisa parece bem. A verdade é que o ritmo da produção é medíocre, e até esse dá sinais de esmorecer.
Para promover o crescimento, António Costa enveredaria por políticas muito diferentes das que escolheu. Precisava de confiar nos empresários, aliviar a carga fiscal e desregulamentar as empresas, liberalizando a economia. Acima de tudo, centraria as atenções no grande drama da nossa actividade, a falta de capital.

Os anos de endividamento e a crise subsequente deixaram a economia exangue de capital. Cinco anos após a retoma, as taxas de investimento e poupança mantêm-se em mínimos históricos e o investimento líquido permanece negativo, não chegando aquilo que se despende para repor o desgaste da actividade quotidiana. Por outro lado, muita da capacidade instalada passou para mãos estrangeiras, vendida para alimentar consumos insustentáveis. O aparelho produtivo geme sob os escombros de décadas de compadrio, má gestão, incúria política, delírios de grandeza e ilusões progressivas. Mas Costa nem se apercebe disso.
Imaginemos que António Costa era realmente um político de esquerda. A sua governação seria muito diferente do que é. Nesse caso ele teria de se centrar na justiça social, atendendo às necessidades dos mais pobres e desfavorecidos; mas esses andam muito arredados da retórica governamental.

A atenção do executivo, como dos anteriores, é dominada pela classe média, na qual estão os votos decisivos. A jogada justifica-se pelo mito que esse grupo foi quem mais sofreu na crise, exigindo reparações do país. A verdade é que, graças ao peso eleitoral, ele foi o grande beneficiado pela dívida que nos arruinou, e quem mais arrecada desde a recuperação.

Para promover os pobres, António Costa enveredaria por políticas muito diferentes das que escolheu. As medidas a favor do povo, dos manuais gratuitos à descida do IRS, propinas e passes, também têm truque: elas beneficiam tanto ricos como pobres mas, pagas por impostos indirectos, como o IVA que sobe imparavelmente, prejudicam sobretudo os necessitados. Até a subida do salário mínimo desqualifica os menos produtivos.
Os grupos que ocupam as atenções do governo, dos juízes e professores aos médicos, reformados, funcionários, infraestruturas, serviços públicos, sindicatos, não são os proletários que fingem ser, mas verdadeiros privilegiados, com poder para recuperar regalias, que mascaram de justas reivindicações, e que os outros trabalhadores não só não têm, como pagam com os seus impostos.

Se ele não atende aos problemas nacionais nem é de esquerda, o que é, afinal? A resposta é fácil por existir uma referência evidente: José Sócrates. Hoje conhecemos apenas a imagem decaída do antigo primeiro-ministro, mas quem se lembre dos seus anos áureos vê imediatamente como se parecem com a actual legislatura. Até os timings são semelhantes.

Sócrates viveu quatro anos de sucesso, distribuindo os ganhos de uma recuperação modesta da forte crise de 2002-2004. É verdade que então a recessão fora menor do que a seguinte, aquela que Sócrates gerou e de que Costa se tem aproveitado, mas mesmo assim a retoma trazia benesses suficientes para fingir prosperidade. Como o período de alívio não foi utilizado para solucionar os desequilíbrios endémicos, logo que a economia mundial virou, Sócrates amargou dois anos, até à queda clamorosa.

Costa segue as pegadas do mestre. Como lhe faltou a maioria nos anos de facilidade, supriu-a com uma aliança parlamentar na extrema-esquerda, que acabou muito mais barata do que o previsto, com os radicais amansados nas mercês da circunstância e holofotes mediáticos. De novo mascarando o alívio conjuntural de desenvolvimento sustentável, permaneceram vícios, distorções e até as ilusões anteriores, só trocando o Magalhães pela Web Summit.

A história não se repete, e a simples sequência gera diferenças de vulto. Apesar disso, é espantosa a semelhança entre o actual governo do PS e o anterior. Entretanto, Sócrates é elevado a inimigo público n.º 1 mas, vilipendiada nos jornais, a sua herança vive no seu fiel discípulo.

 

João César das Neves, Professor Catedrático da CATÓLICA-LISBON.

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