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Donos de Portugal

Sábado, Setembro 29, 2018 - 12:35
Publicação
Diário de Notícias

A recente polémica dos salários dos professores revela muito do nosso carácter político e cultural. A OCDE, no habitual "Education at a Glance", apresenta comparações de indicadores escolares, incluindo a remuneração dos docentes. O estudo é reservado, mas a sua base de dados é pública e inclui dados espantosos, que o professor Daniel Bessa resumiu no Expresso de dia 15: "Com um salário que é cerca de 40% do finlandês, 45% do francês, 50% do italiano e 60% do espanhol, o português médio paga de impostos tanto como os cidadãos destes países (a taxas de tributação que, portanto, se aproximam do dobro) para que os salários dos seus professores sejam iguais aos praticados nestes países."

É verdade que os sindicatos repudiam o estudo referido, chegando ao extremo de se propor enviar centenas de mensagens electrónicas para entupir o correio do director de educação da OCDE (Observador, 13 de setembro). O grande argumento é que os valores indicados são falsos: "Para os professores no topo de carreira a OCDE aponta para os 56 401 euros anuais (4028 mensais), quando as tabelas salariais não passam dos 3364 euros brutos por mês" (loc. cit.). A Fenprof reparou que o relatório tem os valores em dólares, mas converteu-os em euros usando a taxa de câmbio do momento, sem reparar que eles estão em paridades de poder de compra.

Toda a gente sabe que um euro em Lisboa não vale o mesmo que em Vila Franca de Xira, quanto mais em Madrid, Berlim ou Copenhaga. Por isso, para que os valores dos salários sejam comparáveis entre os países, é preciso usar os índices de conversão do poder de compra, que a Fenprof, por ignorância (o que é grave em professores) ou má-fé (pior), descurou. Para serem comparáveis internacionalmente, os números do estudo não são cotejáveis com os recibos de vencimento. O facto de este equívoco motivar um acto de terrorismo digital manifesta o nível cultural dos dirigentes daqueles a quem confiamos a educação dos nossos filhos.

A argumentação do sindicato tem um elemento válido: o estudo analisa valores de tabelas salariais, que "não têm em conta os anos em que as carreiras estiveram congeladas e em que os professores não puderam progredir de escalão" (idem). Só que isto não nega a "captura do Estado português pelos sindicatos dos professores", de que fala o professor Bessa. Apenas manifesta que, depois de os docentes terem conseguido condições principescas, acima de vários países ricos, Portugal arruinou-se, precisamente por causa da dívida correspondente, forçando a austeridade que congelou as carreiras. Assim, a reposição que agora domina as reivindicações dos professores não é um acto de justiça, mas um regresso à injustiça ruinosa que o seu poder desmesurado conseguiu em tempos.

Outra notícia contemporânea completa o quadro cultural: "Fala-se muito de reversões, mas ainda não houve reversões em relação ao setor social e solidário" (Ecclesia, 15 de setembro). Estas palavras de Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas, completa, com a polémica anterior, o retrato da atitude da nossa elite. A esquerda está no poder há quase três anos e fez da inversão da austeridade a grande bandeira. Tem subido, mesmo pouco, salários públicos e pensões, mas ainda não se lembrou dos pobres. O facto não é um detalhe, mas vai ao âmago da profunda crise ideológica dessa área política, explicando também o seu sucesso eleitoral por cá.

A queda dos muros há 30 anos destapou a horrível realidade das soluções da esquerda. Ao contrário de outras ideologias, essas forças propunham uma via bem clara e definida: revolução, seguida da ditadura do proletariado, a caminho da sociedade sem classes. Quando se manifestou a infâmia do socialismo real, esses movimentos passaram por profunda perturbação, sem par na história das ideias, com intensa busca de redenção e relevância. A questão permanece, e até ganhou acuidade na maré de popularidade após a crise financeira global, que trouxe várias dessas forças ao poder ou, ao menos, à plausibilidade. Mas, ao longo dessas décadas angustiantes, Portugal foi um oásis ideológico para a área. Não só teve repetidas maiorias de esquerda, mas é o país do mundo onde um partido assumidamente estalinista nunca perdeu relevo parlamentar. A solução do enigma surge evidente nas discussões recentes.

O sucesso da extrema-esquerda lusitana é simples corporativismo. Os partidos da área abandonaram ideais para se centrarem em interesses, enraizando-se no sector público. O estatismo, sempre central na cartilha esquerdista, passou a exclusivo, mesmo à custa do propósito supremo de justiça social e defesa dos pobres. A luta continuou a ser contra o capital, sempre acusado de ser "dono de Portugal", mas agora privilegiando os meios fiscais, na magna finalidade de arrecadar receita para alimentar grupos instalados no aparelho burocrático, os verdadeiros donos da pátria. Só que, num país com pouco capital e muitos pobres, acabam por ser estes a pagar as reivindicações da esquerda.

 

João César das Neves, Professor Catedrático da CATÓLICA-LISBON.

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