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A ilusão da tecnologia

Quinta, Fevereiro 7, 2019 - 11:49
Publicação
Jornal de Negócios

Por de trás de cada pesquisa bem-sucedida na Google estão muitas horas de trabalho de muitas pessoas extraordinariamente inteligentes.

Vivemos num mundo fascinante em que os avanços da tecnologia nos surpreendem diariamente. Estes avanços coexistem com uma crença excessiva na capacidade da tecnologia. Por de trás de cada pesquisa bem-sucedida na Google estão muitas horas de trabalho de muitas pessoas extraordinariamente inteligentes e dedicadas que foram construindo paulatinamente as soluções atuais.

O que é certo é que temos ao nossos dispor, por exemplo, a maior biblioteca do mundo. Quer de cultura geral quer de âmbito cientifico. Esta informação está disponível para quase todos quando num passado bem recente era disponibilizada apenas para os especialistas mais afamados.

Praticamente não há assunto ou tema em que não consigamos aprofundar, nalgumas horas ou dias, o conhecimento que num passado recente exigiria a frequência de um curso superior, de uma disciplina ou de um mestrado.

Este pensamento sobre a natureza e dimensão do conhecimento efetivamente disponível é tão avassalador que por vezes esquecemos que antes desse conhecimento nos estar disponível alguém teve de escrever o livro, ou o artigo ou o "post". E para lhe dar credibilidade e reputação outros, independentes, tiveram que o validar ou reconhecer qualidade e mérito.

Para muitos, porém, o poder da tecnologia revela-se acima da tudo na sua dimensão transformacional. Isto é no modo como a disseminação de um pensamento ou de uma ideia pode mudar o nome ao ritmo de um "tweet" ou de um "post" no Facebook. Estou no grupo das pessoas que pensam que esses efeitos são relativamente pequenos, ou pelo menos que é difícil antecipar a dimensão e mesmo direção que um determinado "tweet" tem no pensamento e comportamento dos outros ou da sociedade em geral.

Entre nós o "choque tecnológico" foi mesmo uma ideia política. E que se transformou num "choque de dívida pública." Não era claro para mim ou para os eleitores que viesse a ser assim. E certamente também não o era para os promotores do choque.

O uso do Twitter pelo atual Presidente americano é uma fonte diária de ansiedade para a generalidade dos habitantes do planeta. Também de orientação ou humor para outros. Mas para o seu autor é acima tudo uma expressão de poder. E também de exercício do poder. Neste caso o uso da tecnologia dá uma ilusão de poder. A visibilidade mundial de alguns "tweets" mais polémicos contrasta com quase irrelevância da maioria dos demais "tweets". Como medir o poder de cada "tweet"? Pelo efeito do mais visível? Pela média?

E como sabemos se alguma coisa de importante mudou efetivamente na sociedade ou na política mesmo com o "tweet" mais visto?

O que é certo é que o comportamento no Twitter do presidente americano mudou a perceção dos poderosos sobre a sua importância. E há um número crescente de vítimas desta ilusão.

O carismático Elon Musk, ainda não recuperou plenamente de alguns "tweets" polémicos sobre a sua empresa Tesla ou sobre o salvamento dos jovens futebolistas na caverna tailandesa.

E mais recentemente, o CEO da Siemens escreveu uma série de "tweets" zangados contra a comissária europeia da concorrência Margrethe Vestager, por ela se preparar para inviabilizar a fusão entre os negócios ferroviários da Alstom e da Siemens. O que ela acabou por fazer aparentemente imune aos "tweets". A frustração do CEO foi real. O efeito na decisão europeia foi nulo.

A tentação de reagir a quente no Twitter é muito grande. Mesmo a pessoa mais calma e ponderada do mundo sofre quando recebe notícias adversas.

A ilusão da tecnologia não é, porém, ignorar o conselho que se deve pensar antes de escrever. Isso já era verdade antes das atuais tecnologias se terem imposto na nossa vida. A ilusão da tecnologia é acreditar que se consegue mudar o mundo ao ritmo de um post.

Essa ilusão é por vezes mais forte ainda nas empresas, ou nos seus CEO, que acreditam nos efeitos rápidos e fortes de pequenas intervenções. As empresas que usam mesmo a tecnologia sabem, porém, que cada pequeno avanço, cada novidade trazida para o mercado, cada informação comunicada, deu muito trabalho a conseguir. Usou muitas horas de trabalho de pessoas inteligentes, competentes e dedicadas. 

 

João Borges de Assunção, Associate Professor na CATÓLICA-LISBON.

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