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Os empresários portugueses face a um mundo a duas velocidades

Sábado, Dezembro 16, 2017 - 00:00
Publicação
Expresso

É fundamental que as empresas portuguesas comecem a pensar nos mercados emergentes como a Ásia e o Médio Oriente. E não apenas nos mercados comuns como Espanha e zona euro onde há baixas perspetivas de crescimento

O mundo está cada vez mais complexo, fragmentado e competitivo. Os países emergentes da Ásia, incluindo a China, Índia e as economias do Sudeste Asiático, vão crescer 6,4% este ano, acima de 1,1% na América Latina e de 3,4% em África, de acordo com o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulgado em meados de novembro. Já a zona euro ficará nos 2,1% em 2017, de acordo com as últimas previsões da mesma organização. E a tendência é continuar assim, com crescimentos assimétricos, quando comparados os mercados desenvolvidos e os mercados emergentes. De facto, estamos a viver num mundo a duas velocidades. Se analisarmos a taxa de crescimento mundial ao longo das últimas três décadas, chegamos à conclusão de que o PIB mundial tem crescido à volta dos 4% (com exceção, claro, da crise de 2008 e 2009).

Na mesma análise podemos observar que, até ao ano 2000, mercados desenvolvidos e mercados emergentes também cresceram à taxa de 4%, em linha com a média mundial. Mas a partir do início do século XXI passámos a assistir a uma enorme assimetria. E o mundo passou a andar a duas velocidades muito distintas. Isto porque a taxa de crescimento dos mercados emergentes tem vindo sustentadamente a ser superior à dos mercados desenvolvidos em mais de 2%. Assim, desde 2000, temos uma mudança substancial no que é o mundo. E não podemos continuar a ignorar este facto. Se continuarmos a ver o mundo como se apenas da Europa se tratasse, então temos um problema.

Os dados são claros: a Europa e os países desenvolvidos crescem pouco, em média. Tanto a Europa como os EUA crescem a 2% e, se nos focarmos apenas nestes mercados, então a matemática é simples, vamos crescer também a 2%. Os mercados emergentes não podem continuar a ser ignorados pelo tecido empresarial português. Atualmente já representam uma parte substancial do PIB mundial e a expectativa é de que, em 2020, representem já 50% e em 2030 esse valor suba mesmo para 60% do PIB mundial. Se verificarmos o crescimento mundial desde o início do século XXI, chegamos facilmente à conclusão de que mais de 80% desse crescimento vem de países em vias de desenvolvimento, de países emergentes e não dos mercados ditos desenvolvidos.

De facto, o xadrez da economia mundial como o conhecemos terá desaparecido dentro de menos de 20 anos. A acreditar num estudo recente da PwC, se a economia avançar como previsto, em 2030 as economias emergentes irão representar cerca de 60% do PIB mundial, face aos 35% atuais. A China será a maior economia do mundo, reunindo cerca de 20% da riqueza total do globo. A Índia já terá empurrado os Estados Unidos para o terceiro lugar da tabela, com a Indonésia a escalar do oitavo para o quarto posto. Piores são as perspetivas para as economias europeias, que continuarão a ficar para trás. Países como o México deverão ultrapassar gigantes como o Reino Unido ou a Alemanha, sendo que entre as sete maiores economias mundiais, seis serão emergentes. O peso da União Europeia no PIB mundial terá caído para menos de 10%, um valor menor do que o da Índia. Entre as economias que mais se vão destacar nas próximas décadas, encontram-se ainda o Vietname e o Bangladesh que, juntamente com a Índia, deverão registar o ritmo de crescimento mais acelerado. O Reino Unido conseguirá recuperar do ‘Brexit’ e continuará a crescer mais depressa do que os restantes países da União Europeia, mas a economia mais vigorosa dos 27 deverá ser a Polónia. França não deverá figurar entre as dez maiores economias mundiais e Itália não ficará além do 20º posto.

QUAIS SÃO ENTÃO AS IMPLICAÇÕES PARA AS EMPRESAS PORTUGUESAS?

Bem, a verdade é que não podemos ficar agarrados a receitas e fórmulas históricas que já não garantem sucesso. É, sim, muito importante apostar em modelos de negócio locais porque, em muitos destes mercados de alto crescimento, uma estratégia global não funciona e qualquer estratégia de diversificação empresarial que não leve em conta os diferentes mercados e as diferentes particularidades locais está condenada ao fracasso.

De acordo com os últimos dados do INE, as empresas portuguesas exportadoras continuam a manter uma elevada exposição a apenas um mercado, com quase 70% a vender só para um país, nomeadamente Angola, Espanha e EUA. Os últimos dados, referentes a 2016, indicam que estas empresas concentraram 7,2% do valor exportado num só mercado, sendo que as empresas com pelo menos 50% das suas exportações concentradas num mercado representaram 94,1% do total de empresas e cerca de metade do valor exportado.

Ainda de acordo com o INE, em 2016, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, EUA, Países Baixos, Itália, Angola, Bélgica e Marrocos foram os dez principais destinos para os bens nacionais, representando, no seu conjunto, 76,2% das exportações totais.

Isto evidencia claramente que continuamos a apostar nos mercados desenvolvidos e a ignorar o potencial dos mercados emergentes. De facto, o panorama atual da internacionalização das empresas portuguesas é caracterizado por uma concentração da presença nacional na Europa, sobretudo em Espanha, Reino Unido, França Alemanha e em países de proximidade cultural como sejam Angola, Cabo Verde, Moçambique e Brasil. Na génese deste panorama encontram-se decisões de internacionalização baseadas numa orientação de proximidade geográfica e/ou lusófona por motivos de confiança e por algum receio e desconhecimento de outros mercados internacionais com culturas comercias diferentes. No entanto, num mercado global onde as economias crescem a velocidades distintas, os mercados próximos (tradicionalmente a primeira escolha para internacionalização) apresentam um potencial reduzido, especialmente quando se analisa as suas perspetivas de crescimento, ambiente competitivo e se tem em consideração a estrutura e composição do tecido empresarial português.

É por isso fundamental que as empresas portuguesas comecem a pensar nos mercados emergentes como a Ásia e o Médio Oriente e não apenas nos mercados comuns como Espanha e a zona euro onde as baixas perspetivas de crescimento, afetados por anos de crise e incerteza da conjuntura, serão sempre um entrave a elevados crescimentos. Os empresários portugueses não devem tratar a internacionalização como um único mercado. Todos os mercados, e estratégias de entrada, devem ser devidamente analisados. Uma empresa com pretensões de se expandir internacionalmente deve efetuar uma prévia avaliação do mercado externo para determinar quais as melhores opções de expansão e definir uma estratégia de entrada clara que permita ultrapassar os futuros desafios emergentes.

A análise deve envolver uma avaliação dos mercados potenciais, de vantagens competitivas, impacto potencial da internacionalização na estratégia interna, bem como uma avaliação de benefícios e riscos inerentes à externalização do negócio.

Cada mercado é um mercado, pelo que é crucial ter capacidade de entender as realidades, línguas e culturas dos vários países, as suas necessidades e especificidades, bem como ter claro conhecimento das legislações locais.

MINIMIZAR RISCOS

A economia portuguesa tem características que tornam a cooperação empresarial e alianças entre empresas uma estratégia relevante num contexto de internacionalização. O tecido empresarial português é composto na sua maioria por PME e uma das principais dificuldades associadas aos processos de internacionalização reside na sua capacidade de obtenção de recursos financeiros e recursos humanos qualificados inerentes a uma externalização do negócio. A cooperação empresarial nesta área permite não só a partilha de investimento, permitindo que cada um invista menos do que se lançasse o projeto de modo isolado, como também permite a redução de custos operacionais associados a economias de escala (já que os custos de internacionalização são fixos e podem ser diluídos caso haja cooperação), sinergias e economias de experiência. No entanto, apesar dos benefícios operacionais e da redução de exposição ao risco, continua a existir pouca cooperação empresarial entre empresas portuguesas no quadro da internacionalização dos negócios e este é um cenário que deveria mudar a breve trecho.

Por outro lado, é fundamental que as empresas apostem numa estrutura organizacional que lhes permita vencer os desafios de um processo de internacionalização, já que esta permite a extensão geográfica e a diversificação da base do negócio, mas obriga a empresa a desenvolver-se e afina mais rapidamente as competências necessárias para vencer em mercados exigentes e competitivos. Esta necessidade de desenvolvimento de competência verifica-se a todos os níveis da estrutura da empresa, da conceção da oferta à sua divulgação e comercialização, da avaliação do risco à definição de mecanismos de controlo do mesmo, da busca de parceiros à gestão da relação, do financiamento da expansão ao planeamento e controlo da operação, não esquecendo o recrutamento e a gestão de recursos humanos a que uma atividade supranacional obriga. A não profissionalização dos recursos humanos é normalmente o maior impeditivo a uma estratégia de internacionalização. A maior parte do nosso tecido empresarial — 95% PME — está dependente de um grupo muito pequeno que gere a empresa, muitas vezes o dossiê da internacionalização fica assente apenas no CEO, que muitas vezes não tem o conhecimento ou as competências técnicas necessárias (ou o tempo disponível) para a aposta nos mercados internacionais. Muitas empresas não têm uma tecnoestrutura que lhes permita suportar esse passo em frente, por falta de recursos humanos qualificados.

As empresas portuguesas têm, assim, um enorme desafio. Mas isto não se faz sem pessoas. Há que apostar também na profissionalização das organizações e isso significa formar os atuais gestores e recrutar profissionais qualificados já com conhecimento dos mercados onde querem apostar.

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