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“Antes da subida do rating, Portugal era visto como a Coreia do Norte”

Sábado, Setembro 23, 2017 - 01:00
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Expresso

Nuno Fernandes Novo diretor da Católica Lisbon School of Business and Economics

Esteve fora durante os anos da crise. Viveu na Suíça e na última década ensinou numa das mais prestigiadas escolas de negócio do mundo, o IMD. Nuno Fernandes, especialista em Finanças, regressa agora à instituição onde se formou para a dirigir. No próximo dia 26, toma posse como novo diretor da Católica Lisbon School of Business and Economics. A internacionalização é a sua bandeira. Exatamente a mesma que as empresas nacionais decidiram levantar para sair do poço. “Hoje, há oportunidades. E isso deve-se a uma transformação do tecido empresarial”, diz.

Está tão otimista quanto parece estar a maioria dos portugueses sobre o crescimento da economia?

Estou e tenho grandes expectativas para o futuro. Quando estive fora, foi terrível ver uma geração a ter de sair do país. Hoje, vejo claramente um cenário de retoma, com o PIB a subir, o desemprego a cair, portugueses a regressarem a Portugal. E não só: jovens estrangeiros a instalarem- -se no país. Isso acontece porque há oportunidades. E isso deve-se a uma transformação do tecido empresarial.

Que diferenças nota?

Os empresários saíram da sua zona de conforto. Uma parte muito importante da retoma tem a ver não necessariamente com políticas públicas, mas sim com esta nova forma de estar das empresas. Antes, os empresários tinham como base as relações com o Estado e com stakeholders que dominavam a economia. Perceberam que tinham de sair e de apostar na subida nas cadeias de valor, como aconteceu na indústria do calçado. Dados os indicadores económicos positivos e a saída do nível ‘lixo’, temos todas as condições para nos tornarmos muito mais atrativos para um conjunto de investidores estrangeiros que, até aqui, não podiam investir em Portugal.

Tirámos as devidas lições da crise?

Sim. Havia lições óbvias, sobretudo de concorrência no mercado global, que finalmente aprendemos. Vivemos os primeiros anos de 2000 a ser atacados por imensos países emergentes, que tinham um tecido empresarial e vantagens competitivas muito parecidas connosco, incluindo a China e vários países asiáticos. Com o choque da crise, a classe empresarial mudou. E aceitou que é preciso partilhar: muitos empresários tinham a cultura de controlar a 100% as suas companhias e chegaram à conclusão que mais vale ter uma fatia pequena de uma piza grande do que uma piza inteira, mas muito pequena.

Quais os fatores de competitividade que ainda têm de ser trabalhados?

O fator trabalho. No campo tecnológico, somos dos mais avançados da Europa. O mesmo em termos de infraestruturas: temos mais autoestradas do que países desenvolvidos como a Noruega. Mas existem áreas, como a educação, onde há um claro défice. Temos uma percentagem gigantesca da população que não tem sequer o 12º ano. Isto levará muito tempo a mudar e é preciso ligar o ensino à realidade empresarial. Não se pode ser utópico e achar que, de um momento para outro, nos transformamos em Silicon Valley. Nós não somos Silicon Valley, nós somos Portugal.

E como pode o Estado ajudar a aumentar a competitividade das empresas nacionais?

Sobretudo deve garantir que não se torna um empecilho às empresas. E, de facto, desde o início da crise, que o Estado é um empecilho, quanto mais não seja porque o rating da nossa república penaliza as empresas. Muitos investidores não queriam ouvir falar de Portugal porque o associavam à Coreia do Norte. Estávamos mais ou menos no mesmo patamar. É bom não estarmos associados à Coreia do Norte e a melhor coisa que o Estado pode fazer é gerir a sua dívida de forma correta.

Mas não são necessárias mais políticas públicas?

Sim, nomeadamente na área da desburocratização e das tecnologias. Houve já uma melhoria no sistema fiscal e na transformação digital, mas muitos serviços públicos ainda exigem presenças aos balcões. Continua a haver uma duplicação de serviços e as empresas têm muitos problemas quer com burocracia governamental, quer com burocracia judicial. Uma empresa pode não conseguir aceder a fontes de financiamento porque tem um processo com o Fisco em aberto, anos sem fim.

E em termos de políticas fiscais?

Temos de ser realistas: o Estado tem de sobreviver e determinados serviços públicos vão ter de continuar a ser financiados. Por isso, ou cobra impostos às famílias ou às empresas. O esforço que tem sido pedido a todos, empresas e famílias, nos últimos anos, foi exagerado e, neste momento, todos os sinais do próximo Orçamento do Estado vão no sentido positivo.

Considera os atuais níveis de crescimento económico, acima dos 2%, sustentáveis?

À partida, sim. Mas não depende tudo de nós, mas também da conjuntura internacional. Como economia aberta, estamos mais expostos. E uma das transformações importantes que ainda não aconteceu totalmente é a diversificação das nossas fontes de financiamento. Continuamos focados em mercados muito cómodos e próximos, como Espanha e Angola. Se temos um problema num deles, temos um problema na economia nacional. É aterrador ver que exportamos menos para a China do que a Bélgica. Mais de 80% do crescimento mundial vem dos mercados emergentes, mas continuamos a investir sobretudo nos mercados mais estagnados e, por isso, em média, crescemos menos.

Criticou sempre o recurso excessivo das empresas ao financiamento através dívida, assim como a inca acidade de abrirem capital e de obterem capital próprio. Continua a ser um ponto fraco?

Nos próximos anos, será imperativo para os empresários de sucesso diversificar as suas fontes de financiamento. Nunca foi tão claro que sobreviver à custa de empréstimos bancários não funciona. Isso não acontecia há 10 anos.

O próprio sector financeiro é, hoje, muito diferente...

O que se passa é que, quando se fala de sistema financeiro, em Portugal pensamos apenas na banca. Temos, lá fora, mercados financeiros desenvolvidos que os nossos empresários não utilizam. Como mercados de emissão de dívida, por exemplo. Mas há uma maior consciencialização, apesar de ter de ser maior, de que é preciso crescer com base em capital próprio e não apenas alheio. O que implica, muitas vezes, abrir o capital das empresas. Isto liga muito com um segundo ponto: é necessário que os empresários portugueses façam parcerias internacionais que permitam, de forma mais rápida, subir na cadeia de valor. Aí, a abertura do capital ajuda. A dispersão em bolsa também é uma opção.

Hoje temos um PSI20 esvaziado.

A Bolsa é o último fim. Até haver uma Bolsa, têm de existir muitos intervenientes na área do capital próprio que não têm funcionado a 100% em Portugal, desde capitais de risco a fundos de private equity. Tem existido um ambiente de pouca concorrência internacional. Esta subida do rating de Portugal, para o grau de investimento, vai ajudar e haverá mais fundos a entrar mais cedo em capitais de empresas nacionais. Com o tempo, isso vai-se refletir no mercado acionista.

E perdemos grandes empresas. Por falhas de gestão ou porque foram compradas.

Todos os problemas que existiram nos últimos anos, como a queda de grandes empresas nacionais, como o Banco Espírito Santo ou a PT, que eram estrelas da nossa Bolsa e estratégicas para o país, derivam de um problema grande de corporate governance, que nunca foi corrigido ou assumido de forma adequada em Portugal: o conflito de interesses enorme entre aquilo que é o interesse próprio do gestor e aquilo que é o interesse dos acionistas. Tínhamos acionistas a controlarem empresas sem um euro investido na empresa, recorrendo apenas a crédito bancário. Em Portugal, temos muitos falsos empresários que surgiram sem nenhum capital investido, apenas com crédito e favoritismos. Isto fez com que as empresas não fossem geridas na ótica da criação de valor, tornaram-se menos valiosas e foram compradas. Tudo por má gestão.

O papel das escolas de negócio é o de contrariar isso. Assume a direção de Católica Lisbon, reconhecida nos rankings internacionais. Qual a sua missão?

A ética é uma componente muito determinante e as escolas de negócio têm um papel importante. Mas há muitos outros desafios. A continuação da execução da internacionalização, de forma mais marcada, é um deles. Tal como as empresas nacionais, a Católica fez uma transformação para se internacionalizar.

E está a ajudar as exportações.

O ensino tem um potencial tão grande ou superior ao turismo, enquanto dinamizadores da economia nacional. Temos enorme potencial para exportar serviços que tornem a nossa balança muito sustentável a longo prazo. Esse ainda não tem sido o foco da maioria das universidades portugueses, mas a Católica pode ser considerada um case study. E para o país é ótimo: trazemos alunos e empresas estrangeiras, que descobrem Portugal e depois até decidem fazer investimentos subsequentes no país. A exportação de curto prazo de serviços de ensino pode ter efeitos de arrastamento a longo prazo, nomeadamente a criação de postos de trabalho.

A Católica tem apostado fortemente na formação de executivos e no empreendedorismo. Vai manter-se?

Temos de fazer escolhas. O crescimento virá da área de formação de executivos e dos mestrados, nomeadamente internacional. Mais de 50% dos nossos alunos já vêm do estrangeiro, de 60 países. Mas prefiro não pôr o crescimento à frente da qualidade. Na minha área de Finanças, o valor vem no longo prazo e não no curto.

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