Covid-19 coloca em risco entre 17% a 31% do emprego no setor privado da economia portuguesa

Wednesday, July 8, 2020 - 16:54

Este artigo faz parte da série Análises da Economia Portuguesa em tempos de Covid-19, iniciativa do PROSPER - Center of Economics for Prosperity, e representa algumas das conclusões do estudo Quem arcará com os custos da crise Covid-19: Análise de empregos em risco em Portugal


Autores: Joana Silva, Kamil Kouhen, Madalena Gaspar e Martim Leitão

Setores que pararam ou quase pararam por razões de saúde pública (Sectores altamente sensíveis), incluindo restaurantes e bares, alojamento, viagens e transporte, serviços pessoais, entretenimento e lazer, comércio grossista e retalhista sensível e indústrias transformadoras sensíveis, representam cerca de 20% quer do emprego estruturado quer da massa salarial do setor privado em Portugal que corresponde a 3,9% do PIB. No geral, o efeito direto e indireto da contração dos setores altamente sensíveis coloca em risco entre 17% a 31% do emprego no setor privado da economia portuguesa. Tratam-se, assim, de setores e empregos que, provavelmente, terão mais dificuldade em recuperar das perdas associadas à pandemia da Covid-19.

Figura 1. Percentagem do emprego nos sectores mais afetados.
Fonte: Cálculos dos autores usando a base de dados dos Quadros de Pessoal. 
Nota: Emprego por CAE a 4-digitos vem dos Quadros de Pessoal 2007 e classificados em categorias mais agregadas baseado na exposição à crise associada à Pandemia da Covid-19.

Como consequência da pandemia da COVID-19, medidas de confinamento foram impostas numa panóplia de setores de atividade económica em Portugal. Setores que pararam ou quase pararam por razões de saúde pública foram classificados como setores altamente sensíveis. Para este fim, recorreu-se (e adaptou-se) ao contexto português (CAE, quatro dígitos) à classificação americana NAICS e aos setores desta última considerados vulneráveis por Vavra (2020). Os setores mais afetados pelo confinamento incluem restaurantes e bares, alojamento, viagens e transporte, serviços pessoais, entretenimento e lazer, comércio grossista e retalhista sensível e indústrias transformadoras sensíveis.  

Restaurantes e bares representam cerca de 6% do emprego estruturado em Portugal. Alojamento, viagens e transporte representam 3%, Serviços pessoais representam cerca de 1%; entretenimento e lazer aproximadamente 1%; comércio grossista e retalhista sensível cerca de 6%, e indústrias transformadoras sensíveis também cerca de 6%. Curiosamente, a fração de empregos vulneráveis sobre o emprego total são parecidas em Portugal e nos Estados-Unidos da América, embora a sua composição difira substancialmente. Apesar da sua importância, restaurantes e bares, serviços pessoais, e entretenimento e lazer representam uma fração maior do emprego nos Estados-Unidos do que em Portugal. (Figura 1).

Uma contração destes setores, na ordem de magnitude relatada pelas empresas no inquérito  rápido do INE / BP , pode ter afetado cerca de 400 mil empregos. Uma eventual paragem completa destes setores teria afetado diretamente cerca de 700 mil empregos. Por seu turno, estes efeitos são amplificados por efeitos indiretos noutros setores que se manifestam através das cadeias de produção, colocando em risco 130 mil e 245 mil empregos adicionais, respetivamente. No geral, o efeito direto e indireto da contração dos setores altamente sensíveis coloca em risco entre 17% a 31% do emprego no setor privado da economia portuguesa (Figura 1). Tratam-se, assim, de setores e empregos que, provavelmente, terão mais dificuldade em recuperar das perdas associadas à pandemia da Covid-19.

Figura 2. Efeitos diretos (no sector) e indiretos (através da cadeia produtiva) no emprego (primeiros 3-meses). 
Fonte: Autores usando Quadros de pessoal e Inquérito Rápido e Excecional às Empresas. 

O potencial ajustamento do emprego estende-se a trabalhadores de setores que não encerraram por razões de saúde pública, mas que sofreram uma contração da procura interna e externa (exportações) de, respetivamente, -2% e -7% no primeiro trimestre de 2020 em relação ao trimestre anterior (INE, 2020). Paralelamente, o choque de procura relatado pelas empresas no inquérito do INE / BP pode afetar, diretamente ou indiretamente, cerca de 60% do emprego total, quer de forma contemporânea, quer de forma desfasada ao longo dos próximos meses. Estas estimativas referem-se aos últimos 3 meses (curto-prazo).

Notas de rodapé:

[1]  Nota: os setores classificados como altamente vulneráveis são Restaurantes e bares, Alojamento, viagens e transporte, serviços pessoais, entretenimento e lazer, comércio grossista e retalhista sensível e indústrias transformadoras sensíveis. Restaurantes e bares incluem os seguintes códigos CAE Rev3: 5621,5629,5610,5630. Alojamento, viagens e transporte incluem os seguintes códigos CAE Rev3: 3315, 3316, 3317, 3831, 4932, 5100, 5110, 5121, 5122, 5222, 5223, 5224, 5229, 5510, 5511, 5520, e 9200. Serviços pessoais incluem os seguintes códigos CAE Rev3: 8623, 9529, 9602, 9604, 9609. Entretenimento e lazer incluem os códigos CAE Rev3: 7990, 9001, 9002, 9003, 9311, 9312, 9313, 9319, 9321, e 9329. Comércio grossista e retalhista sensível inclui os códigos CAE Rev3: 4531, 4532, 4540, 4641, 4642, 4647, 4648, 4665, 4677, 4690, 4719, 4726, 4743, 4751, 4753, 4759, 4761, 4762, 4764, 4765, 4771, 4772, 4776, 4777, 4778, 4781, 4782, 4789, 4799, 7721, 7722, 7729, 9524, e 9525. Indústrias transformadoras sensíveis incluem os códigos CAE Rev3: 1320, 1391, 1392, 1394, 1395, 1396, 1399, 1412, 1413, 1414, 1420, 2751, 2752, 2829, 2894, 2910, 2920, 2931, 2932, 3011, 3012, 3030, 3101, 3102, 3103, 3109, 3210, 3211, 3212, 3213, 3220, 3230, 3240, 3249, 3291, e 3299

[2] De acordo com o Inquérito Rápido e Excecional às Empresas – COVID-19 do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Banco de Portugal (BP), publicado a 5 de maio de 2020, a quebra de volume de negócios estimada para cada setor face à situação expetável sem a pandemia era de 74% para os restaurantes e bares, 53% para o setor das viagens e transportes, 53% para os serviços pessoais, 74% para o entretenimento, 47% para o comércio a retalho e 44% para a indústria transformadora. A última edição deste inquérito, relativa à primeira quinzena de maio e publicada no dia 19 de maio, sugere uma ligeira melhoria da situação face a abril, especialmente no comércio a retalho.


Este artigo faz parte da série Análises da Economia Portuguesa em tempos de COVID-19

A pandemia COVID-19 coloca enormes desafios à Economia Portuguesa e aos decisores económicos e políticos. A CATÓLICA-LISBON está a desenvolver, desde o início da pandemia, um conjunto de iniciativas que incluem sondagens, análises económicas, propostas de políticas e conferências digitais, as quais divulgamos nesta página. Esta iniciativas procuram gerar conhecimento, discutir experiências, apresentar análises de dados, e mostrar nova evidência relevante para as decisões económicas dos cidadãos, empresas e entidades públicas. A página tem a curadoria da Profª Joana Silva, Diretora do CATÓLICA-LISBON Center of Economics for Prosperity e conta com contributos dos economistas e investigadores da CATÓLICA-LISBON.

Procuramos assim contribuir para uma mais rápida recuperação da Economia Portuguesa e maior bem-estar de todos os cidadãos. We Stand UNITED!

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