Há uma superioridade moral dos princípios de liberdade que a democracia americana representa face aos princípios territoriais opressivos do atual regime russo. O mundo mudou quando, a 24 de fevereiro de 2022 a Rússia invadiu a Ucrânia com uma agressão militar infame. A indignação é geral e tem sido, e bem, manifestada por muitos desde líderes a cidadãos comuns na generalidade dos países do mundo. Todos os dias surgem notícias dos horrores da guerra na Ucrânia que justificam a condenação incondicional da Rússia, do seu governo e das suas forças armadas.
No espaço público, um pouco por todo o lado, as palavras de rejeição total da violência militar expressam o sentimento de quase todos. Os meus sentimentos começaram pela perplexidade, depois o choque e neste momento são dominados pela ansiedade. Pelo medo do que ainda está para vir. Putin e o governo russo não se limitam a bombardear cobardemente a Ucrânia. Já ameaçaram com referências diretas a países como a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia, a Polónia, a Finlândia e a Suécia. E sugeriram que poderiam usar armas de destruição mútua contra adversários indefinidos. Que obviamente são os países da NATO e da União Europeia.
A ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial foi arquitetada pelos aliados sob a liderança dos Estados Unidos. A Carta das Nações Unidas e o Conselho de Segurança da 0NU são as peças centrais de uma espécie de carta constitucional à escala mundial. A missão primária da ONU é manter a paz e a segurança internacionais. O princípio-chave é que, com exceção das colónias da época, as fronteiras dos países só se podem alterar por acordo mútua. A supervisão à aplicação desses princípios é feita pelo Conselho de Segurança onde os EUA, a Rússia e outros três países têm direito de veto.
A gravidade da agressão russa altera a ordem mundial já que aquela é uma potência nuclear com direito de veto. E cria um desafio insustentável à manutenção da ordem mundial. Putin é um líder ambicioso, carismático, resiliente, inovador e disruptivo. Quase revolucionário. É também uma força para o mal e um perigo para o modo de vida dos países livres e democráticos. O seu lugar na História do século XXI está assegurado pelas transformações que desencadeou no mundo.
O resultado das guerras é sempre incerto. Gostamos de acreditar que as guerras são ganhas pelos bons. Se o resultado das guerras fosse óbvio para os beligerantes estes não necessitavam de combater. Putin transformou a Rússia num Estado pária. E criou ao mundo livre da NATO, União Europeia e países desde a Coreia do Sul à Nova Zelândia, com sistemas de governo e valores semelhantes, um desafio existencial.
A NATO e a União Europeia precisam de uma Grande estratégia para lidar com a Rússia de Putin. A NATO e a União Europeia não estão atualmente preparadas para se defender da ameaça russa. Um dos elementos centrais será a constituição de uma aliança à escala global dos países que estão ameaçados pelo Estado russo. As sanções económicas desempenharão um papel central.
Mas não há muitos exemplos de governos que tenham mudado em resultado de sanções económicas. Os sistemas de defesa e informações desempenharão um papel essencial nessa estratégia.
Algumas atividades dos Estados serão mais secretas e menos transparentes. A Rússia já nos tirou uma parte da nossa liberdade e modo de vida. Os países da NATO e da União Europeia e demais democracias liberais terão de se preparar para esta ameaça, que deixou de ser meramente teórica ou potencial. Essa preparação será demorada e dispendiosa. E exigirá de todos nós, governos e cidadão, paciência estratégica. Isto é, não reagir epidermicamente às atrocidades da guerra. Só os Estados Unidos poderão liderar essa Grande Estratégia. Há uma superioridade moral dos princípios de liberdade que a democracia americana representa face aos princípios territoriais opressivos do atual regime russo.
Autoria: João Borges de Assunção
Fonte: Jornal de Negócios