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Este país não é para velhos (e para os novos também não)

Thursday, November 26, 2020 - 11:38
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Público

No início desta pandemia falou-se muitas vezes na vida ou no bolso. Na saúde ou na economia. Na realidade elas são indissociáveis. Não se pode comprar saúde, mas pode-se investir nela e provavelmente o melhor sítio para começar é através da educação. Na esperança de que o país seja para velhos, novos e todos os outros.

 

Tenho para mim que a base de qualquer sociedade assenta em dois pilares fundamentais para o desenvolvimento: a educação e a saúde.

Por um lado, existe uma quantidade significativa de estudos que demonstram a relação entre o nível de educação e formação e a produtividade económica e capacidade competitiva das nações.

Por outro, a educação e a saúde estão intimamente ligadas. Tem-se mostrado que indivíduos com mais formação beneficiam de melhor saúde e de hábitos e comportamentos mais saudáveis. A educação é um mecanismo essencial para melhorar a saúde populacional, pois diminui a necessidade de acesso a cuidados e respetivos custos e melhora a qualidade de vida quer a nível individual, quer a nível populacional.

E porque é que isto é fundamental? Porque vivemos num país com recursos dedicados à saúde e à educação limitados. Vivemos num país que sofre um desinvestimento crónico nestas duas áreas. Temos orgulho na esperança média de vida da nossa população, mas raramente discutimos a iniquidade dos dados de forma mais granular.

De acordo com um estudo da OCDE e dados do Eurostat, uma mulher em Portugal que tenha concluído o ensino superior face a uma mulher que tenha concluído o ensino secundário tem uma diferença na esperança média de vida de 2,8 anos, enquanto que para o sexo masculino a diferença é de 5,6 anos.

Portugal tem vários desafios na educação, sendo um dos maiores o envelhecimento do corpo docente. Somos um país muito envelhecido e isto reflete-se também nos professores das nossas escolas, que são os mais velhos quando comparados com os restantes dos países da OCDE. Mais de 40% dos professores do ensino primário e secundário português têm mais de 50 anos de idade. É fundamental estimular a formação de novos professores e revestir esta profissão com a dignidade que ela merece.

A nossa sociedade precisa de reconhecer melhor o papel destes profissionais no desenvolvimento do nosso país. Por outro lado, o Sistema Nacional de Saúde é um pilar fundamental para a sociedade portuguesa no que diz respeito à promoção da saúde, mas também na perspetiva de equidade social. Por um lado, Portugal tem demonstrado ser eficaz nos cuidados primários e de ambulatório, contudo, o SNS não é capaz de dar resposta à nossa população no espírito em que o mesmo foi criado. Em 2016, 8% dos agregados familiares portugueses tiveram despesas catastróficas com saúde.

Por outro, temos de melhorar o rastreio e tratamento oncológico e promover uma melhoria na gestão da antibioterapia. A crise de saúde pública que atravessamos fez com que todos olhássemos para o estado do SNS: restrições financeiras, degradação das infraestruturas e dos equipamentos, fuga de recursos para os sistemas privados que são mais competitivos na atração dos mesmos e a desmotivação dos seus profissionais são consequência da falta de investimento e do desrespeito pelo seu papel insubstituível na comunidade.

Investir no SNS deveria ser uma prioridade fundamental do nosso país. É um instrumento essencial para a produtividade e competitividade do país, mas também um instrumento de igualdade social e de integração.

Temos ainda o desafio na promoção de cuidados continuados para a população mais frágil e envelhecida do nosso país. Em 2019, 22% da população portuguesa tinha mais de 65 anos de idade. Em 2050 estima-se que este número ascenda a 33% da totalidade da população. Temos de usar acontecimentos extraordinários, como a pandemia covid-19, para diagnosticar problemas e pensar no futuro, como é o caso da nossa incapacidade, enquanto sociedade, de cuidar da nossa população envelhecida. Existe uma zona cinzenta entre a área social e a área da saúde, na qual parece que ninguém quer assumir responsabilidades. A falta de infraestruturas e de soluções com qualidade para cuidados e acompanhamento dos mais velhos cria uma pressão desmesurada na chamada geração sanduíche – aqueles que cuidam de menores e de seniores, enquanto têm responsabilidades profissionais e sociais. No estado atual, o que a pandemia veio mostrar é que este país não é para velhos, mas a ironia é que somos um país de velhos.

Vivemos mais, mas também ficamos mais doentes. Grande parte de nós seremos HONDAs (hipertensos, obesos, não compliant, diabéticos ou asmáticos). Estes doentes representam 70% dos custos associados à saúde e sensivelmente 80% do volume de trabalho referente a cuidados médicos. São estes doentes que crescem devido à força da demografia e que criam uma pressão no sistema. Sabemos que, na sua maioria, estas doenças são evitáveis ou adiáveis através da adoção de comportamentos mais saudáveis. Sabemos ainda que maiores níveis de educação resultam em melhor estado de saúde durante mais tempo.

Assim, é fundamental criar um ciclo virtuoso no nosso país. Em primeiro lugar, melhor educação resulta em maiores níveis de rendimento, e este tem um efeito positivo na saúde individual. Este efeito pode ser observado na curva de Preston, que demonstra a relação empírica entre a esperança de vida e o PIB per capita. Adicionalmente, maior rendimento leva a um maior contributo económico a nível social. Em segundo lugar, melhor educação leva a melhores resultados na saúde e numa poupança de custos no sistema, pois adia ou elimina determinadas doenças. Um aumento no nível de educação da sociedade também permite evoluir de um sistema de cuidados que são acionados quando o indivíduo já se encontra doente (sickcare) para um sistema real de saúde (healthcare), mais focado na prevenção.

Estamos a apagar fogos há anos, e não temos planos a prazo. Na gestão estratégica existe uma teoria designada Ampersand que é simplesmente a designação do símbolo: &. Temos de garantir a operação de hoje e também planear e preparar o futuro.

Assim, o país não só não será capaz de dar uma resposta digna aos mais velhos como também não será apropriado para reter e atrair o talento dos mais novos.

Inspirado no filme da Marvel, Dr. Strange, em inglês o Mordo diz “The bill comes due. Always.” Há sempre custos. E vamos pagar. Sempre!

Como sociedade, e no que diz respeito à saúde e à educação, temos de decidir o que pagar (onde investir), a quem e com que racional (porque é que o investimento cria valor).

No início desta pandemia falou-se muitas vezes na vida ou no bolso. Na saúde ou na economia. Na realidade elas são indissociáveis. Não se pode comprar saúde, mas pode-se investir nela e provavelmente o melhor sítio para começar é através da educação. Na esperança de que o país seja para velhos, novos e todos os outros.

Joana Santos Silva, Professora da Católica Lisbon School of Business & Economics​

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