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Desde 2020 que a sustentabilidade deixou de ser uma prioridade para os governos e empresas. A crise do COVID, a invasão da Ucrânia pela Rússia, o surto inflacionista, a guerra no Médio Oriente, a revolução da Inteligência Artificial, e as profundas transformações geopolíticas a que o mundo tem vindo a assistir na era Trump 2.0, com um aumento do populismo, do isolacionismo e do imperialismo, bem como a negação das alterações climáticas, tem levado as agendas políticas e empresariais a focarem-se em questões de autonomia estratégia e resiliência em detrimento dos temas da sustentabilidade. O recente conflito no Golfo Pérsico e o aumento do preço do petróleo e gás a nível mundial, parecem ser a machadada final na contenção das emissões de carbono, pois levará a novos investimentos e maior exploração futura de combustíveis fósseis.
Isso é um erro dramático para a Humanidade pois a nossa prosperidade depende de a sustentabilidade continuar a ser prioritária nas suas diferentes vertentes – Ambiente, Social e Governação (ESG).
Comecemos pelo Ambiente. As evidências recentes têm validado as previsões dos cientistas do clima. A emissão de gases com efeito de estufa tem aumentado a concentração de dióxido de carbono na atmosfera muito para além da capacidade de absorção do planeta e a um ritmo muito mais rápido do que qualquer alteração climática da história. Como consequência, e como previsto, o clima do planeta nos últimos anos tem relevado um padrão de aquecimento global face aos níveis pré-industriais (1850-1900). Os últimos 11 anos foram os mais quentes desde 1900 e os últimos três anos foram os mais quentes de todos. E já em 2024 se ultrapassou a meta de 1.5 graus de aquecimento global. Os fenómenos climáticos extremos são por demais evidentes, incluindo em Portugal. O problema climático é, hoje em dia, muito real e o foco dos governos e empresas está na adaptação e resiliência climática, o que faz sentido. Mas se abandonarmos os objetivos de redução de emissões, o aquecimento global irá continuar a acentuar-se, o que poderá trazer riscos catastróficos para a civilização humana.
Falemos agora do Social. O aumento dos conflitos a nível mundial, a redução da ajuda humanitária pelos países ocidentais e o aumento das desigualdades e acentuar de fenómenos de exclusão e pobreza, está a provocar não só crises humanitárias globais, mas também a redução de coesão e solidariedade dentro de cada país. Isso aumentará a intolerância face a todos aqueles que são diferentes e contribuirá ainda mais para fenómenos de polarização da sociedade. Mas nós temos nos países europeus uma demonstração clara de como o foco na diversidade e inclusão gera sociedades mais pacíficas e coesas. Esse é uma mais-valia que as sociedades não podem perder. A aposta na diversidade da população e da força de trabalho das empresas, a promoção da igualdade de género, e o foco na inclusão de forma a não permitir que o sistema económico e social exclua indivíduos ou grupos pelas suas diferenças, são práticas fundamentais que importa reforçar.
E por fim, mas não menos importante, o tema da Governação. Sabemos desde tempos imemoriais que a concentração de poder leva a vícios nos sistemas políticos e sociais que enfraquecem os direitos e garantias dos cidadãos e desembocam em conflitos e abusos. Os temas da separação de poder, seja nos regimes políticos (com a separação do poder executivo, legislativo e judicial), seja na administração das empresas (como por exemplo com a boa prática de separação de funções de Chairperson e CEO) são essenciais para modelos de governação virtuosos. Os temas da transparência, de redução dos conflitos de interesse, de combate à corrupção e ao branqueamento de capitais são essenciais para uma sociedade livre onde impere a noção de Direito como regulador dos poderes num contexto de respeito pelos direitos humanos. Sem boa governação os nossos sistemas degeneram.
A sustentabilidade continua assim a ser um imperativo maior da Humanidade e de cada país. A nossa sociedade alcançou um enorme progresso civilizacional nos 70 anos que marcaram o fim da 2ª Guerra Mundial até 2015, ano do apogeu do multilateralismo e da promoção da sustentabilidade, com o Acordo de Paris e o lançamento da Agenda de Desenvolvimento Sustentável. Cabe a cada um de nós – cidadãos, líderes empresariais e gestores públicos, zelar para que os temas da sustentabilidade continuem no coração das agendas e nos planos de ação.
Filipe Santos, Dean da Católica Lisbon School of Business and Economics