Content in Portuguese
A Apple anunciou no dia 10 de maio de 2022 que iria deixar de produzir e comercializar iPods. Um produto que teve uma vida extraordinária vendendo mais de 450 milhões de unidades nos seus cerca de 20 anos de vida.
O iPod é um leitor de ficheiros, mas para os seus utilizadores é a forma de ouvir, e guardar, as músicas que querem ouvir em qualquer altura ou local. Dando conteúdo prático à ideia de ubiquidade. Um disco externo de dados é um produto bastante desinteressante e aborrecida. Mas na caixa que toca todas as minhas músicas favoritas, incluindo os últimos êxitos, torna-me instantaneamente popular. Para tornar o produto atrativo, a Apple teve de proceder a um esforço de inovação quer no hardware quer no software. Afinal criar um sistema que permite organizar as músicas e torná-las acessíveis de muitas maneiras não é tão fácil assim. E a falta de qualidade na reprodução estraga a experiência de as ouvir.
Um leitor de todas as músicas da minha coleção tem apelo universal. O problema prático de criar um produto destes é tecnológico. Mas é preciso também desenhá-lo num formato que os utilizadores gostem e que seja prático. Os estudos de mercado a potenciais utilizadores não são muito informativos. Saber o que a tecnologia permite fazer em cada momento sim.
Steve Jobs, o CEO da Apple, explicou o produto de uma forma simples e clara na sessão de lançamento em 2001: "Permite colocar 1000 canções no seu bolso.". Pelos seus benefícios e funcionalidades, portanto. E a imprensa explicou o produto de forma simbólica: "O Walkman da Apple do século XXI", numa referência direta a um produto icónico da Sony com funcionalidades semelhantes. Havia outros leitores de ficheiros de músicas MP3 em 2001, mas nenhum tinha a capacidade, a qualidade ou o apelo estético do iPod.
Há uma grande coragem estratégica em apostar o futuro de uma empresa como a Apple, que produzia computadores de elevada qualidade gráfica e design bem como o software necessário para os operar, num produto tão simples comum leitor de música. Mas na prática foi isso que aconteceu no longínquo ano de 2001.
Num certo sentido, o iPod é um produto de transição. Em 2010, Steve Jobs explicou que a Apple era uma empresa de “devices” móveis. Desde o iPod, portanto. A principal barreira à adoção do iPod pelos utilizadores era o preço. A 399 dólares (450€ ao câmbio da época) era um produto muito caro. Os utilizadores mais entusiastas eram jovens, mas nem todos conseguiam comprar. E apesar da ausência de publicidade, o produto teve reconhecimento quase global quase instantânea O iPod teve muitas melhorias e inovações ao longo dos anos, acompanhando as oportunidades propiciadas pela evolução tecnológica.
O fim anunciado em 2022 cria sentimentos de perda em muitos dos seus utilizadores originais. Afinal o produto tem dimensões simbólicas e icónicas incontornáveis. A expressão "ouvir um podcast é uma referência direta ao iPod. O gosto de transportar e ouvir músicas favoritas é universal e transcende culturas e idades. O gosto pela música é, a par da linguagem, uma das dimensões mais singulares de todas as culturas humanas. A razão para o fim do iPod é obviamente que as suas funcionalidades são hoje desempenhadas por outros produtos. Os smartphones são hoje produtos multifuncionais, para a música, fotografia ou internet. Algumas pessoas até fazem chamadas telefónicas com eles. Terminar com um produto tão bem-sucedido é uma decisão difícil para qualquer empresa. Convém lembrar que a ideia de produto tem subjacente uma certa tentativa de padronização. Pequenas empresas que introduziram milhares de produtos diferentes são de facto empresas de serviços. E dificilmente dedicarão atenção totalmente focada ao desenvolvimento dos seus produtos. Pelo contrário empresas grandes com linhas de produtos relativamente pequenas são extraordinariamente focadas em garantir que as suas ofertas padronizadas estão bem concebidas para os seus clientes e ambiente tecnológico e concorrencial. Há por isso lições interessantes na decisão da Apple de deixar de oferecer o iPod. Terminar a produção de um produto não é um sinal de fracassa E os recursos criativos da empresa podem ser dirigidos de forma determinada para um conjunto limitado de tipos de produtos.
Uma empresa que desenvolve ao mesmo tempo muitos produtos diferentes, dificilmente dará atenção cuidada a qualquer um deles.
João Borges de Assunção, Professor na CATÓLICA-LISBON