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Num dia normal, terminamos o mesmo tendo referido a palavra “algoritmo” algumas dezenas de vezes. Debatemo-nos com as contas e as lógicas tentando entender (entre o limite do desespero e o entusiasmo do desafio) como jogar o jogo a nosso favor. Mas um bom exercício é colocarmo-nos, não deste lado, mas do lado das plataformas e percebermos como fazer o algoritmo funcionar.

A resposta à questão deste texto é breve e segue dentro de momentos. Mas comecemos pelo básico: um algoritmo precisa de informação. Para o cálculo lógico da atribuição de valor para o qual foi programado deve obrigatoriamente obter indicadores. São esses que depois terá em conta e entrarão na célebre equação mágica e desconhecida. É com base nesses que sairá um output (mostra A em vez de B).

Então podemos assumir (de uma forma simplista, perdoem-me os experts pela heresia de tentar em três mil caracteres falar de um tema tão complexo) que nenhum algoritmo pode ser bom nas recomendações se se basear em pouca informação. O outro problema logo imediatamente a seguir é basear-se em má informação.

Como obter então essa informação?

Numa primeira fase, podemos obtê-la pela análise do consumo de conteúdos num ecrã; qualquer analytics retorna esta data de forma ágil: o que viram, por quanto tempo, para onde foram a seguir, etc.

A segunda forma de obter informação é: pedindo.

Aqui não se entenda por caixas de feedback, mas por ferramentas criadas para gerar informação de que os algoritmos precisam. Botões de “Gosto”, de “Adicionar aos Favoritos”, de “Seguir”, de “Partilhar”, etc. Cada item tem um propósito para a plataforma e o tipo de informação que obtém complementa na árvore de decisão as necessidades do algoritmo; da próxima vez já sabe: pergunte não para que serve aquele botão, mas sim que tipo de informação pertinente recolhe.

O que nos leva à luta Instagram vs. TikTok como exemplo para explicar o tema de hoje – e a resposta ao título do texto: a melhor amiga do algoritmo é a interface.

Imagine um feed do Instagram atualmente: trata-se de um lençol onde cada conteúdo vem colado a seguir ao próximo. Por vezes podemos parar o “rolo” e ficar a ler os comentários de um post e reparamos que, no mesmo ecrã em baixo, já aparece a foto do post seguinte. Ora nesta situação que informação extrair daqui? Contamos o tempo dos comentários do post A ou da foto do post B que vem a seguir? Atribuímos 50/50? Ignoramos a informação caso o utilizador não interaja?… Multiplique-se este padrão de não interação ativa (botões e cliques) nos feeds do Twitter, Facebook, Instagram, etc., e percebe-se o desperdício de informação.

Ao contrário, abra agora o seu TikTok. Cada ecrã só tem um conteúdo. Toda a interface recolhe quer informação passiva (consumo) quer ativa (interações) do utilizador, sem qualquer dúvida sobre a sua atribuição. Tudo é devido àquele conteúdo. É informação inequívoca. Não se desperdiça. E ajuda e empodera o algoritmo.

Talvez seja agora mais evidente por que, no seu Instagram ou no dos seus amigos, começou a ver interfaces diferentes nas últimas semanas (eu mesmo no meu círculo mais próximo já encontrei três!). Claramente um avanço da plataforma que está a fazer testes e a tentar acertar na melhor interface que ajude o utilizador na descoberta e consumo de conteúdos relevantes, retendo-o, mas igualmente na obtenção de data para o algoritmo lhes fornecer melhores recomendações.

Quando a Netflix alterou as 5 estrelas de feedback para o simples modelo “Gosto/Não Gosto” ou quando agora o Vivino alterou as votações para uma interface que permite escalonar à décima as avaliações dos vinhos, são apenas mais exemplos de como as interfaces devem trabalhar para uma melhor usabilidade e uma recolha de informação que traga mais e melhor informação para conhecimento do utilizador.

Agora imagine a este nível os desafios para as próximas décadas, com o que serão os vários metaversos com interfaces e ambientes tridimensionais.

 

Ricardo Tomé, Professor na CATÓLICA-LISBON

 

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